É ano de realizar um novo Atlas do Priolo e, como tem sido habitual, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) está à procura de voluntários que queiram ajudar a contar “todos os priolos do mundo”. Uma realidade que só é possível porque esta espécie existe unicamente numa zona da ilha de S. Miguel, nos Açores.
Outrora uma das espécies mais ameaçadas do mundo, o priolo (Pyrrhula murina) tornou-se uma das maiores histórias de sucesso da recuperação, graças a um trabalho ininterrupto iniciado em 2003, com o primeiro projecto LIFE que a SPEA colocou em vigor dedicado a esta pequena ave que vive, no Nordeste de S. Miguel, preferencialmente, em zona de floresta laurissilva.
Naquela altura, o priolo estava classificado como “Criticamene em Perigo”, no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, mas desde 2016 que, graças aos programas de conservação da espécie, que a classificação foi actualizada para “Vulnerável” – provavelmente o melhor que alguma vez se conseguirá, dada a reduzida dimensão do território em que vive.
Por isso, é essencial continuar a acompanhar os priolos e a garantir que o seu habitat se mantém nas melhores condições possíveis, para evitar que o declínio volte a ser uma realidade. O Atlas do Priolo, que a SPEA leva a cabo de quatro em quatro anos, desde 2008 – a excepção foi o período da pandemia, em que a iniciativa teve de ser adiada –, permite avaliar a “tendência populacional e analisar o padrão de distribuição espacial desta espécie que só existe nos Açores”, explica aquele organismo em comunicado.
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Contudo, para que o retrato seja o mais fidedigno possível, são precisos muitos olhos e ouvidos disponíveis num período limitado de tempo, pelo que a participação de voluntários é crucial. E é deles que a SPEA anda à procura.
Formação e sensibilização
A iniciativa vai realizar-se entre 22 e 26 de Junho, em S. Miguel, e quem quiser juntar-se à contagem de priolos só terá de garantir o pagamento do voo até àquela ilha açoriana (se não residir lá, claro). Depois, a SPEA garante transporte desde o aeroporto, alimentação e alojamento, que será numa espécie de “campismo num espaço fechado”, instalado na escola do 1.º ciclo do Nordeste, explica o responsável pelo Atlas, Tarso Costa.
Para participar, tem de ter mais de 18 anos, mas não precisa de ter qualquer conhecimento especial sobre aves ou a sua observação. Durante os três primeiros dias da iniciativa, os participantes recebem formação sobre a espécie e o que se espera deles, durante o censo. Por isso, vão ficar a saber mais sobre o habitat do priolo e a ecologia da espécie, além de poder visitar o seu território e avistar algumas aves.
Serão ainda treinados para identificar a distância a que avistam ou ouvem priolos, na altura de partir para o terreno e realizar a contagem – o que acontecerá apenas numa manhã. Isto é essencial para que a “fotografia” instantânea que se pretende obter da população de priolos seja o mais fidedigna possível, permitindo estimar quantos são e em que zonas estão mais ou menos concentrados.
“Este projecto é enquadrado como sendo de ciência cidadã, pelo que prevê a participação das pessoas. E é também veículo de sensibilização para a educação ambiental”, explica Tarso Costa, que é técnico da SPEA.
Quem quiser participar como voluntário no V Atlas do Priolo, deve inscrever-se na página www.centropriolo.com/v-atlas-do-priolo, até 6 de Abril. Tarso Costa diz que já houve algumas inscrições, mas são precisas mais, para chegar ao número pretendido pela SPEA: 50.
As últimas estimativas apontam para a estabilização da população de priolos entre os mil e os 1200 indivíduos. Os Atlas anteriores estimavam a existência de 1064 aves, em 2008, 1025 em 2012, 1167 em 2016 e 1368 em 2022. Pode parecer uma melhoria, mas para que isso seja assumido, são precisos muitos mais anos com uma tendência clara nesse sentido, pelo que se considera que, para já, a população está estável.
No final do ano, a SPEA lançou uma campanha de crowdfunding destinada a esta espécie, que pretendia angariar entre dez a 20 mil euros para aquisição de quatro parcelas de terrenos, com cerca de três hectares, que seriam reconvertidos de área de pastagem para floresta natural, permitindo aumentar o habitat do priolo. De acordo com a página da iniciativa, foram já angariados mais de 12 mil euros.
O priolo esteve perto da extinção, muito graças à caça e à desflorestação. Nos últimos anos, contudo, a maior ameaça que tem enfrentado é a proliferação de espécies invasoras que degradam o seu habitat natural, o que exige um trabalho contínuo de monitorização e remoção dessas espécies, para garantir que continua a ter condições para a acolher o único canto do mundo em que existe esta ave.

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