
Percebeu que havia um problema ainda com 15 anos, depois de um episódio que o deixou irreconhecível. Os pais procuraram ajuda, mas ficou sempre “com uma pedra no sapato”. Mais tarde, acabou por ser diagnosticado com transtorno obsessivo-compulsivo — por causa de pensamentos repetitivos que o magoavam e que não conseguia travar — e com uma depressão.
Tiago Castro, que ficou conhecido ao interpretar o personagem “Crómio”, na série Morangos com Açúcar, diz que, mesmo nessa altura, entre 2004 e 2006, enquanto fazia rir o país, “estava a sofrer, e ninguém sabia”. Os anos que se seguiram — com uma passagem pelos Estados Unidos, para onde foi estudar e procurar oportunidades como ator — fizeram-no passar por uma longa fase de “desespero”. Noutro país, e tão longe de casa, o facto de já ter sacrificado tanto, até em termos financeiros, fê-lo “esticar a corda ao máximo”, até estourar.
Nesta entrevista inserida na série “Labirinto — Conversas sobre Saúde Mental”, gravada no hotel Palácio do Visconde — The Coffee Experience, em Lisboa, conta que, à distância, e mesmo sem terem a noção exata da dimensão do problema, a família ajudava como podia. Numa das “piores noites” da vida do ator, a mãe ficou ligada numa videochamada, toda a madrugada, só a vê-lo dormir e a confortá-lo quando acordava.
Voltou para Portugal e ainda andou a correr o país com uma companhia de teatro, mas já a recusar trabalhos por não ter capacidade de gerir tudo o que lhe estava a acontecer. Esteve altamente medicado, mas só voltou a fazer psicoterapia depois de conhecer a namorada — agora, mulher — e de ter aceitado a ajuda do irmão, que lhe pagou a consulta. Foi nesse dia que decidiu fazer o desmame dos medicamentos — num processo longo e sempre acompanhado — e mudar a forma como olhava para a vida. Porque também foi nessa altura que percebeu a base do problema: “Sacrifiquei toda a minha vida pessoal por causa de uma carreira, e percebi que tinha de acabar com isso, imediatamente.”
[Veja aqui a entrevista completa a Tiago Castro]
Quando é que surgiram os primeiros sinais de coisas que lhe estavam a acontecer e que estavam relacionadas com a sua saúde mental? Foi ainda numa fase ótima, como a dos Morangos com Açúcar?
Até antes. Começou aos 15 anos, num episódio que ocorreu na minha vida pessoal. Eu estava num lugar do qual não podia sair, sem os meus pais, e desse episódio resultou uma mudança drástica naquilo que eu era, mesmo fisicamente. Num período de cinco a seis dias, perdi à volta de quatro quilos — ou mais, até. As pessoas podem pensar que estou a exagerar, mas a verdade é que estava mesmo fisicamente alterado. E, assim que os meus pais me viram, perceberam que algo de muito grave tinha acontecido — e, logo de imediato, perceberam que precisava de ajuda. Foi a primeira vez que tive terapia, por assim dizer.
Que sinais foram esses? Deixou de dormir? Deixou de comer?
Não, na altura tive mesmo quase um surto, porque foi um choque para mim, aquilo que aconteceu, e tive um comportamento atípico. Mesmo os meus pais perceberam que eu estava diferente, a nível de personalidade. E foi o suficiente para eles perceberem que precisava de ajuda, já que eles estavam completamente apáticos e não conseguiam de forma alguma “entrar”. Mas foi a melhor coisa que puderam fazer.
Foi procurar ajuda fora, ajuda que eles não poderiam dar.
Exato. Na altura, foram os recursos que eles tinham e aquilo que encontraram. Pode não ter sido o ideal, no meu parecer, porque era o chamado psicodrama. Na altura, isto em 98, se calhar poderia ter tido uma consulta com um psicólogo individualmente, mas fui para um grupo de psicodrama, em que havia uma série de outros problemas à minha volta que nada tinham a ver com o meu. Não sei se acabou por ajudar, mas acabei por começar a tomar medicação, no sentido de me acalmar. Não era ainda nada que tivesse a ver com depressão, mas só de me acalmar, e fiz a gestão desse acontecimento durante um ano, de uma forma muito individual. Penso que isso marcou e delineou todo o meu futuro, e tudo o que veio a acontecer depois ao nível da saúde mental.
E sente que esse ano de que fala, com a terapia, mesmo que nesses moldes de psicodrama, e a medicação para controlar, presumo que a ansiedade, o ajudaram a voltar ao caminho em que estava, ou houve ali alguma pedra que ficou no sapato?
Acho que ficou uma pedra no sapato. Ainda por cima, tinha acabado de entrar no primeiro ano da escola profissional de teatro, onde estamos a desenvolver e a trabalhar as nossas emoções de uma forma, às vezes, selvagem e não tão bem guiada como poderia ser. E tudo isso, toda essa amálgama de sentimentos, tudo o que eu poderia estar a desenvolver enquanto adolescente, a desenvolver a minha vida sexual pela primeira vez, tudo isso acabou por ser avassalador, e penso que não foi gerido da melhor maneira. E ficou, sem dúvida, essa pedra no sapato, que acho que se refletiu.
E quando é que volta a sentir a pedra no sapato outra vez? Quando é que voltou a perceber que havia ali um problema?
Isto teve a ver, nomeadamente, com uma relação que eu tinha na altura.
Muito tempo depois?
Sim, cada relação que eu tinha depois desta refletia aquilo que senti naquele momento, e todos os meus medos, defesas e expectativas nasciam com base naquilo que sofri naquele momento específico.

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