Em Dezembro, Itália tornou-se o primeiro país a ver a sua gastronomia elevada a Património Cultural Imaterial da UNESCO e o rosto por trás do início do processo é Maddalena Fossati, directora das revistas La Cucina Italiana e Condé Nast Traveller Italia, presente na Pitti Taste, feira enogastronómica realizada em Florença de 7 a 9 de Fevereiro, para ser homenageada. A jornalista continua a apelidar de “acto de loucura” a ideia que teve, mas impele outros países a seguirem esse exemplo.
Como surgiu a ideia de candidatar a gastronomia italiana a Património Mundial Imaterial da UNESCO?
Estudei Ciência Política e fascina-me a capacidade da diplomacia de mudar as coisas no mundo e sempre cultivei a ideia de salvar o mundo. Além disso, vivi em Paris durante muitos anos e isso fez-me perceber como nós, italianos — e acho que os portugueses também — não nos sabemos vender. Em plena pandemia, tive a ideia da candidatura. A comida não serve apenas para nos alimentarmos. Nós falamos de comida a toda a hora, expressamo-nos emocionalmente perguntando o que se quer comer, fazia, portanto, todo o sentido. Fiz 94 entrevistas a pessoas ligadas à gastronomia e avançamos. Tive a sorte de ter ao meu lado figuras importantes como Massimo Bottura, Carlo Craco, Carlo Cracco e Niko Romito.
Porque apelida a candidatura de acto de pura loucura?
Porque em Itália temos dificuldade em reconhecer o nosso valor e em trabalhar em conjunto, estamos muito divididos entre Norte e Sul. Depois, a UNESCO parece uma coisa poderosa e inacessível. Portanto, parecia impossível, mas aconteceu um milagre. Trabalhamos arduamente e o mais importante para mim foi, na verdade, unir as pessoas e levá-las a mostrar o melhor de si.
E agora, já com o selo UNESCO, o que se segue?
Agora precisamos de fazer as chamadas acções de defesa da nossa gastronomia, que são acções culturais por um lado, e, por outro, a protecção dos alimentos. Temos de nos preocupar se as gerações mais jovens estão a aprender a cozinhar, quando, sobretudo nas zonas urbanas, a tendência é encomendar comida online em vez de a preparar em casa. Quando me falam de uma casa sem cozinha, tremo. É um pouco como perder as raízes, não é? Estou a trabalhar na criação de um curso de culinária para alunos, do ensino básico ao superior, que servirá não só para aprender a cozinhar, mas também compreender a cadeia de abastecimento, os produtos, a sazonalidade, a história, os chefs e as receitas.
Que conselhos dá a quem diz não cozinhar por falta de tempo?
Temos que nos adaptar aos tempos, mas não devemos perder o acto de cozinhar. O mais importante é ter produtos frescos em casa, fazer coisas simples para não perdemos os valores dos nossos ingredientes que são a nossa essência, de darmos valor a estar à mesa e atenção aos alimentos com os quais nutrimos o nosso corpo.
Itália está a proteger bem os seus produtos?
Em Itália, somos bastante activos nesse aspecto e isso dá uma sensação de crescimento muito positiva. Acho que Portugal tem de fazer o mesmo. Nico Romito, um dos chefs com quem trabalhei na candidatura, tem um cartaz na sua cozinha que diz: “É preciso acreditar nisto”. Assim, aos meus amigos em Portugal, um país pelo qual tenho um grande carinho, digo: “Vocês precisam de acreditar nos vossos produtos para que os outros acreditem.
Hoje, o que significa a comida para si?
Em primeiro lugar, estar sentado à mesa é um grande momento de serenidade e normalidade, mas é um lugar onde sei que o meu país se expressa plenamente. Mas a comida, para mim, é um grande veículo para a paz. Aliás, a minha próxima missão é, à semelhança do que já falou Alain Ducasse, criar uma mesa da paz. A ideia é começar a fazer com que os países conversem, sentando-se à mesa para chegarem a um acordo.
Que país deveria seguir o vosso exemplo e candidatar a sua gastronomia a Património Cultural Imaterial da UNESCO?
A Índia deve apressar-se a fazê-lo, porque é uma versão macro de Itália. Se eu fosse o Governo indiano, fá-lo-ia imediatamente. Têm tantas diferenças, unidas por uma só gastronomia.

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