
A pergunta que toda a gente faz, no PSD e fora dele, faz é porquê agora. No Governo estranha-se a cadência e a acutilância das intervenções mais recentes de Pedro Passos Coelho. Ninguém encontra um motivo plausível, o que aumenta a estupefação. Não existe um calendário óbvio, nem um plano evidente. Luís Montenegro está no poder. Se eventualmente cair de forma prematura às mãos da oposição, terá uma oportunidade de enfrentar novamente as urnas. Passos nunca disputará eleições internas com o seu antigo delfim.
O cenário alternativo — ser empossado primeiro-ministro sem ir a votos — nunca esteve sequer nas cogitações de Passos. Pelo que se torna difícil perceber o que move verdadeiramente o antigo presidente do PSD. Existe, todavia, uma tese que poucos se esforçam por negar: se Passos ainda quer ter um futuro político — e isso o antigo primeiro-ministro nunca afastou, antes pelo contrário — o montenegrismo tem de cair. E estas intervenções públicas de Pedro Passos Coelho podem não matar, mas moem.
Ninguém, a não ser o próprio, tem a verdadeira resposta para pergunta que todos fazem. E o próprio não partilha os planos — se é que os tem — de ânimo leve. Quem o conhece bem, ainda assim, vai sugerindo que Pedro Passos Coelho está apenas a vestir o fato de “senador” e a falar com a “liberdade” de quem construiu uma vida profissional fora da política, fez a sua própria travessia no deserto e sente que é deve agora falar ao “país”. “Não há nenhum mistério. Passos não tem nenhum calendário estudado. Tem vários convites e aqueles que pode aceitar, aceita”, relativiza fonte próxima do antigo primeiro-ministro.
Miguel Morgado, antigo assessor político do então primeiro-ministro e passista convicto, num dos seus espaços de opinião, também apoucou dos espíritos mais inquietos com as aparições recentes de Pedro Passos Coelho, dizendo que ex-presidente do PSD “não está ligado a nenhuma lealdade sectária” e que é ‘apenas’ um “espírito livre“, cuja “opinião conta mais do que a da maioria das pessoas”. “As democracias vivem de pessoas com esta frontalidade. Artistas e artolas acho que já temos os suficientes.”
No essencial, para lá de todos os ressentimentos pessoais que existem, há uma diferença de fundo que afastará sempre Luís Montenegro e Pedro Passos Coelho: o entendimento que os dois têm sobre o que fazer com a maioria política, parlamentar e sociológica que existe no país. O atual primeiro-ministro chegou ao poder fazendo valer a sua narrativa das “linhas vermelhas” à direita; o seu antecessor sempre achou essa estratégia um profundo disparate que acabará por engolir o PSD.
Na verdade, Pedro Passos Coelho considera um erro de palmatória que se tivessem traçado cordões sanitários em torno do Chega por entender que é uma cedência à agenda do PS e dos partidos à esquerda do PS, uma concessão que limita as hipóteses do PSD de fazer alguma coisa de estrutural com o poder, e que pode acabar por alienar, inevitavelmente, eleitores essenciais.
Ao mesmo tempo, o antigo primeiro-ministro, que chegou a assumir que o seu projeto para o país tinha sido interrompido prematuramente à boleia da ‘geringonça’, sente que Luís Montenegro está disposto a sacrificar uma hipótese de transformar verdadeiramente o país para se preservar — e aos seus — no poder, usando as mesmíssimas táticas de António Costa, o homem que o derrubou montado numa aliança de esquerda de reação e reversão à PàF. O atual primeiro-ministro, como sintetizaram Hugo Soares e Luís Campos Ferreira, tem um entendimento diferente: a política é a arte do possível e Montenegro está a fazer o possível para reformar um país que às vezes parece ingovernável.
Em resumo, há muito que Pedro Passos Coelho se distanciou de Luís Montenegro e das suas escolhas. O mesmo se pode dizer do atual chefe de Governo, que escolheu Aníbal Cavaco Silva — e não Passos — como o seu santo padroeiro, e promoveu Mendes, o seu padrinho político, a candidato presidencial — cargo que Passos nunca quis verdadeiramente. O resto da história é conhecido: o antigo primeiro-ministro foi peça importante na forma como a campanha de Luís Marques Mendes acabou dinamitada; assim que se fechou o ciclo presidencial, Passos começou a dinamitar Luís Montenegro. Resta saber até onde.

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