O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta quarta-feira que duas representantes democratas do Congresso dos EUA — Ilhan Omar, do Minnesota, e Rashida Tlaib, do Michigan, ambas muçulmanas — deveriam ser “internadas” e enviadas “de volta para onde vieram”, um dia após ambas terem protagonizado uma troca acesa de palavras com Trump durante o discurso do Estado da União.
Durante a intervenção de Trump, na terça-feira, Tlaib, norte-americana de origem palestiniana, e Omar, norte-americana de origem somali, criticaram o Presidente enquanto este destacava a política de repressão rigorosa da imigração da sua Administração e as respectivas acções de fiscalização. Ambas fizeram-se ouvir durante o discurso para acusar Trump de “matar norte-americanos”, tendo Omar chamado o Presidente de “mentiroso”.
Numa publicação na sua Truth Social, na quarta-feira, Trump afirmou que as duas legisladoras “tinham os olhos esbugalhados e ensanguentados, como pessoas loucas, lunáticas, mentalmente perturbadas e doentes que, francamente, têm aspecto de que deviam ser internadas”.
“Devíamos enviá-las de volta para onde vieram — o mais depressa possível”, lê-se na extensa publicação do Presidente. Tanto Omar como Tlaib são cidadãs norte-americanas.
O líder da minoria democrata na Câmara dos Representantes dos EUA, Hakeem Jeffries, classificou a retórica de Trump contra as democratas como “xenófoba” e “vergonhosa”. Tlaib escreveu na rede social X que os comentários de Trump mostram que o Presidente está “a perder o controlo”. Já o grupo de defesa dos direitos dos muçulmanos Council on American-Islamic Relations considerou “racistas e preconceituosas” as declarações de Trump.
A Casa Branca não respondeu a um pedido de comentário. Karoline Leavitt, porta-voz da Casa Branca, afirmou na semana passada que membros da comunicação social têm “difamado” o Presidente ao rotulá-lo como racista.
Durante o discurso de terça-feira, Trump acusou também comunidades somalis nos Estados Unidos de estarem envolvidas em fraude e afirmou que “piratas somalis” saquearam o estado do Minnesota, depois de, no início do mês, ter divulgado um vídeo racista com uma representação do ex-presidente Barack Obama e da sua mulher, Michelle Obama.
Detenção durante o discurso no Congresso
Durante o mesmo discurso de Trump no Congresso, Aliya Rahman, cidadã norte-americana e convidada da congressista Ilhan Omar naquela cerimónia, foi detida pela polícia do Capitólio, noticiou o Guardian.
REUTERS/KEVIN LAMARQUE
Segundo as autoridades, a mulher foi detida por conduta ilegal e perturbação do Congresso. Porém, Rahman afirmou na quarta-feira, em entrevista ao Democracy Now, que estava em silêncio quando foi detida.
“Sem crachás, sem expressões faciais, sem gestos, sem cartazes, sem um único som”, explicou. “Há apenas duas coisas que se pode fazer durante o Estado da União: estar sentado ou estar de pé. Muitas pessoas estiveram a levantar-se durante toda a noite. Eu também. Levantei-me quando ouvi este homem [Trump] dizer algumas das coisas mais racistas que já ouvi sair da boca de um líder sobre as pessoas da minha cidade.”
Questionado sobre a alegação de Rahman, que estaria apenas de pé e em silêncio, um porta-voz da polícia do Capitólio respondeu ao Guardian por correio electrónico: “Não é permitido [estar de pé]. Foi-lhe dito para se sentar. Ela recusou. É simples.”
Em comunicado, Ilhan Omar pediu a abertura de uma investigação à detenção. “A minha convidada, Aliya Rahman, levantou-se em silêncio na galeria durante o discurso do Presidente por um curto período, parte do qual coincidiu com o momento em que outros convidados também estavam de pé. Por isso, foi removida à força, apesar de ter alertado os agentes para as suas lesões nos ombros, e acabou acusada de ‘conduta ilegal’”, explicou.
“A resposta musculada a uma convidada pacífica envia uma mensagem perturbadora sobre o estado da nossa democracia. Estou a exigir uma explicação completa sobre as razões desta detenção”, acrescentou.
Em Janeiro, a mesma cidadã norte-americana foi retirada do seu carro e arrastada por agentes de imigração no Minnesota, numa operação que visava deter e deportar alegados imigrantes sem documentos. Os agentes ter-lhe-ão provocado lesões em ambos os ombros ao removê-la do veículo, motivo pelo qual Rahman, antes de a sua nova detenção no Congresso ser processada, teve de ser assistida no Hospital Universitário George Washington.
As acções de fiscalização da imigração levadas a cabo por Trump foram criticadas após dois tiroteios fatais, ocorridos em Janeiro, envolvendo cidadãos norte-americanos e agentes federais no Minnesota. Pelo menos oito pessoas morreram em centros de detenção da Agência de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla original) desde o início de 2026, números a que se somam pelo menos 31 mortes registadas no ano passado.

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