
Ser homenageado já diz muito. Ser homenageado numa sala que leva o nosso próprio nome diz muito mais. Esta sexta-feira, na sala Carlos Lopes da Federação Portuguesa de Atletismo, o mesmo Carlos Lopes foi o protagonista de uma cerimónia que recordou o dia 28 de fevereiro de 1976, ou seja, o dia em que há precisamente 50 anos conquistou o Campeonato do Mundo de Corta-Mato.
Acompanhado pela mulher e por dois dos três filhos, pouco mais de uma semana depois de completar 79 anos, o antigo atleta chegou bem-disposto e animado à sede da Federação Portuguesa de Atletismo, que fica em Linda-a-Velha, Oeiras. Recebido com entusiasmo por Domingos Castro, atual presidente do organismo com quem chegou a treinar no Sporting, desdobrou-se em fotografias, entrevistas e conversas paralelas com a tranquilidade de quem sabe que é o homem mais importante da sala.
A vitória em Chepstow, no País de Gales, foi o maior feito do atletismo português até então e abriu a porta aos principais feitos internacionais da carreira de Carlos Lopes: a medalha de prata nos 10.000 metros nos Jogos Olímpicos de Montreal ainda no mesmo ano, a medalha de ouro na maratona nos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 1984 e as outras duas vitórias no mesmo Campeonato do Mundo de Corta-Mato, em 1984 e 1985.
A cerimónia desta sexta-feira contou com a presença de Pedro Dias, secretário de Estado do Desporto, Diana Gomes, secretária-geral do Comité Olímpico de Portugal, Susana Feitor, presidente da Fundação do Desporto, Ricardo Gonçalves, presidente do Instituto Português do Desporto e Juventude, e ainda Daniel Monteiro, presidente da Confederação do Desporto de Portugal, entre várias outras figuras. Antes dos obrigatórios discursos, Carlos Lopes assistiu a um vídeo com as imagens da vitória de há 50 anos e vários testemunhos de antigos atletas, como Ana Dias, Paulo Guerra, Sandra Teixeira ou Rui Pinto, que recordaram a importância do legado do campeão olímpico nas respetivas carreiras.
Num momento de muita emoção em que acabou por não conseguir esconder as lágrimas, Domingos Castro confessou que tem em Carlos Lopes “um ídolo” e que foi através das vitórias do antigo atleta que também decidiu começar a correr. “Não tenho palavras que descrevam tanta gratidão a esta personagem. Diria que aqui nesta sala não há ninguém mais feliz do que eu a ouvir as palavras do próprio interveniente. Por isso, uma vez mais, Carlos, muito obrigado. Estou aqui a dar o máximo pela nossa modalidade, por um homem inesquecível, que revolucionou o atletismo português e internacional e por isso, a ele, uma vez mais, muito obrigado pela oportunidade que me deu de estar aqui hoje”, disse.
“Eu sou um privilegiado que consegui treinar com ele, inspirei-me nele. E, como ele disse muito bem, às vezes, naqueles momentos muito difíceis da competição, nós lembrávamo-nos do nosso ídolo, das coisas que ele fazia e nós tentávamos imitá-lo e, muitas das vezes, deu resultado. Embora eu reconheça que as capacidades do Carlos Lopes são únicas e não creio que irá aparecer mais alguém em Portugal que se compare com o Carlos Lopes”, acrescentou, vincando que a Federação Portuguesa de Atletismo poderia homenagear o antigo atleta todos os dias que, ainda assim, não seria suficiente para tudo o que deu ao atletismo nacional.
Carlos Lopes. 7 momentos e 70 passos que nos fizeram maiores
Já o próprio Carlos Lopes, que se tornou o primeiro atleta que é também membro honorário da Federação Portuguesa de Atletismo, mostrou-se naturalmente muito feliz com a cerimónia. “Acho que foi um carinho muito especial pelos 50 anos, pelos 79 que fiz há muito pouquinho tempo. Pela primeira vez, a Federação tem a coragem de homenagear e honrar aquilo que nós fizemos há muitos anos. Fazer 50 anos da primeira medalha num Campeonato do Mundo, acho que marcou a história, marcou a mentalidade de muitos portugueses, de que realmente o desporto era uma mais-valia para todos nós e, acima de tudo, uma mais-valia para a saúde mental”, começou por dizer, revelando depois que no fim da primeira volta no País de Gales já sabia que ia ganhar.
“Reparem bem, o estado de alma que eu tinha, a capacidade que eu tinha e o saber dos momentos em que tinha que decidir. Acredito que os meus adversários nunca tivessem acreditado que eu ia ganhar daquela forma. Mas foi um prazer tremendo quando cheguei à meta com a medalha já garantida e dizer que valeu a pena todos os sacrifícios de 12 anos para chegar àquele momento”, terminou.

Deixe uma Resposta