
Às 11h45, começa a dar a aula de português do 8.ºC, sem um minuto de atraso — pelo menos por parte do professor. As lições 64 e 65 começam com a correção dos trabalhos de casa e o professor João Pedro percorre a lista de nomes para confirmar quem os fez: “Alex, TPC? Diana, TPC?” Ouvem-se alguns “fiz”, mas vários admitem ter feito “tudo menos a parte da gramática”, com justificações pouco convincentes.
Quando o professor utiliza a expressão 6-7 — que representa algo que nem é bom, nem é mau e que se tornou recentemente viral nas redes sociais —, um coro de alunos reage, alertando que não é bem assim que se diz. A turma tem 17 alunos, uma das mais pequenas que João Pedro já teve, o que lhe permite conhecê-los melhor e ajustar o ensino. “Gosto de perceber porque é que um aluno chama a atenção, de onde vêm essas coisas. Será que em casa não tem com quem falar?”.
Quando João anda pelos corredores, é várias vezes abordado. “Cortou a barba, ‘stor? Bué Estiloso!”, “Trouxe a sua namorada?”, “Amanhã temos questão de aula, né?”. O professor é paciente. “Às vezes passam do limite, falam de aspetos físicos meus ou perguntam coisas sobre a minha vida pessoal. Outras vezes é tudo tranquilo. Hoje até me disseram que querem vir aos apoios que dou, porque as minhas aulas são fixes.”
João Pedro não tem dificuldade a encontrar colocação perto de casa por viver na periferia de Lisboa, onde a escassez é elevada. “Senti que havia umas escolas mais receptivas para novos professores do que outras. Cada diretor tem um projeto e portanto, a escola vai funcionar de uma forma diferente. Nesta escola, por exemplo, os novos professores têm uma reunião com a diretora e outras pessoas para os orientarem sobre como funcionam certas plataformas, o que é que há, o que é que não há, mas não é assim em todas as escolas e nem sempre encontramos o apoio que precisamos.”
A diretora Rosa Fernandes confirma: “Qualquer colega que entre na nossa escola vai ver como é que é a dinâmica. Tem logo o contacto com a área disciplinar que leciona e com o departamento, para ficar com um leque de apoios. O colega é acompanhado para se adaptar à escola e à parte informática. Como nós começámos a ter esta realidade no agrupamento, sentimos necessidade de ir ao encontro destes colegas para eles não se sentirem perdidos.”

Deixe uma Resposta