
Ainda antes de se pensar naquilo que poderia ser a eliminatória frente ao Bodö/Glimt, havia um outro registo histórico que não passava ao lado de ninguém em termos internos: depois do triunfo com o FC Porto para a primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal, o Sporting estava apenas a uma vitória de igualar aquele que era o recorde do clube de sucessos consecutivos a jogar em casa. Havia a oportunidade de chegar a esse número, a oportunidade não foi desperdiçada, esse número que tinha sido alcançado na longínqua época de 1973/74 estava repetido. No entanto, 17 de março de 2026 vai ficar na história dos leões por muitas mais razões, naquela que ficará como uma das melhores noites europeias de sempre em Alvalade.
Apenas quatro equipas tinham conseguido virar uma desvantagem de três golos numa fase a eliminar da Liga dos Campeões: o Deportivo, numa eliminatória contra o AC Milan em 2004; o Barcelona, numa eliminatória com o PSG em 2017; a Roma, numa eliminatória com o Barcelona em 2018; e o Liverpool, numa eliminatória de novo contra o Barcelona em 2019. Pontos comuns? Equipas das principais ligas, equipas que tinham as suas ambições na prova, equipas que pareciam fazer parte de uma elite inalcançável. Pelo menos, até aqui: num duelo entre equipas sensação da atual edição da Liga dos Campeões, o Sporting deitou por terra o 3-0 que o Bodö/Glimt trazia da Noruega e goleou os escandinavos por 5-0 após prolongamento.
Com isso, e apenas pela segunda vez na história, os leões alcançaram os quartos da principal prova europeia, a primeira desde que passou a Liga dos Campeões em 1992 e 44 anos depois do duelo com os bascos da Real Sociedad na Taça dos Clubes Campeões Europeus (1-0 em Alvalade, 0-2 no País Basco). O Sporting ainda está longe dos registos do Benfica (19, seis no atual formato) e FC Porto (dez, oito no atual formato) mas deu mais um passo num crescimento que se fez sentir em termos internos e chega agora também à Europa, com a particularidade de, contando com tempo extra, igualar a maior goleada (5-0 ao Floriana em 1970) e virar uma eliminatória com três golos de desvantagem 62 anos depois do 5-0 ao Manchester United.
“Antes de mais, deixe-me dedicar aos meus pais, à minha família e ao meu filho que merecem, sofrem muito comigo. Tenho saudades deles e eles estão a torcer por nós. Mulher, filho, irmãs, o meu pai, em especial à minha estrela, o meu avô. Em relação à vitória, um bocadinho a frase que usei na palestra, que foi o Neto que disse: conhecíamos o melhor Bodö, mas eles não conheciam o melhor Sporting. A treinar a energia era diferente, a vontade de fazer algo diferente era infinita. Com o acreditar senti claramente que ia ser uma noite diferente. Com o 2-0 se não tivéssemos passado estaria super orgulhoso. Tem muito a ver com crença que metemos no jogo, fez a diferença”, começou por comentar Rui Borges, técnico do Sporting que viu a equipa chegar aos 105 golos em março com a quinta vitória noutros tantos jogos em casa na Champions.
“Vimos o melhor Bodö e eles não conheciam o melhor Sporting, é o melhor resumo. Não podíamos entrar em demasiado jogo interior, que gostamos muito. Os melhores momentos para marcar lá foi por corredores, com diagonais. Passámos o jogo todo a fazer isso. A equipa sabia o que tinha de fazer, a energia esteve lá, quem entrou foi importantíssimo. Estavam completamente ligados. Sabíamos que em Bodö não foi o Sporting que somos sempre. Faz parte, um jogo menos bom faz parte. Eles merecem esse respeito da minha parte e de todos, não são máquinas. Mais do que a estratégia lá, tinha sido a intensidade. Hoje foi do oito ao 80, com intensidade altíssima. Caímos um pouco depois no prolongamento, é normal. Fizemos variações, acalmámos com bola. Estiveram perfeitos na parte estratégica do jogo”, acrescentou o treinador leonino.
“Críticas? Vou ser muito honesto, vou defender os meus jogadores. Percebo as críticas mas eles não a merecem. Podíamos não ter passado que vinha aqui defender os meus jogadores. Não é pelo jogo de Bodö que merecem as críticas porque têm sido fantásticos. Agora, claro que ficámos todos desiludidos pelo que aconteceu. Mas acreditávamos que era possível, se há estádio onde era possível era este. Os adeptos que foram fantásticos do princípio ao fim. Os verdadeiros campeões são os que caem e se levantam até ao fim. A nossa crença é inabalável e a resiliência é infinita. Vitória mais importante da carreira? Não, a vitória mais importante tem de ser no domingo. É uma vitória importante, mais uma e deixa-me feliz que continue a marcar a história do Sporting, mas amanhã já estou a pensar no Alverca”, concluiu Rui Borges.

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