Também eu vou descer à rua
Deparei-me há dias com um pequeno poema de um jovem: “Já paguei a renda. / Já posso passar fome em paz.”
“Já não dá” é o mote da manifestação do próximo fim-de-semana, em várias cidades do país, pelo direito a uma “Casa para Viver”. O apelo vem de mais de uma centena de colectivos, que lidam diariamente com o drama de quem fica sem tecto porque o dinheiro não chega e a precariedade é crescente.
As promessas da actual maioria atropelam-se umas às outras e são flagrantemente unilaterais: apoiam os mercados imobiliários, ignoram os movimentos que traduzem o mal-estar social na habitação. As últimas medidas anunciadas, mesmo sem estarem publicados os diplomas finais, já provocaram aumentos irregulares de rendas. É a lei da selva.
José Gil desenvolveu magistralmente o conceito da “não inscrição” em Portugal. Inibir o registo público dos acontecimentos da nossa vida colectiva redunda numa paralisia social e num sentimento de impotência que só a acção colectiva pode desfazer. Garantir o direito à habitação para todos e suas famílias é justo, necessário e urgente. É tempo de o exigir publicamente. Também eu vou descer à rua no próximo sábado.
Helena Roseta, Lisboa
O decrescimento
O PÚBLICO de domingo deu-nos uma longa entrevista com Jason Hickel, cuja leitura recomendo. Professor em Barcelona é defensor do “decrescimento”. Esta ideia meio exótica atrai a minha atenção desde há muito. Porque é que as economias têm de crescer, crescer, sempre, e muito? Porquê? É evidente que este Jason tem a sua costela “socialista” (digamos assim), com a apologia que faz do actual sistema chinês, que meio que defende, mas esta ideia de parar a loucura do “crescimento” e do chamado “desenvolvimento” tem de ser encarada seriamente, se queremos ter um planeta habitável no século XXII. Exemplos (meus): porque é que precisamos de tanta roupa nova todos os anos (deitando ao lixo a do ano anterior)?; porque é que precisamos de tantas viagens transcontinentais de seis em seis meses?; porque é que há gente que colecciona idas a países como quem colecciona(va) cromos da bola?; trocar de carro de dois em dois anos, etc., etc.; sabendo que tudo isto tem elevados impactos nefastos no ambiente e na poluição?
Fernando Vieira, Lisboa
Os docentes do politécnico tem de ser avaliados para mudar de carreira
O texto de Miguel Copetto, no PÚBLICO de domingo, discute criticamente a decisão política de transformar alguns institutos politécnicos portugueses, como os de Leiria e do Porto, em universidades. O autor, como eu próprio, não questiona a legalidade da decisão, nem a qualidade das instituições ou do seu corpo docente. Reconhece que estas possuem massa crítica relevante, investigação consolidada e professores qualificados.
Mas transformar politécnicos em universidades implica uma mudança profunda na missão académica, sendo necessário: redefinir perfis de docência; alterar metodologias pedagógicas; reorientar prioridades de investigação; reforçar a centralidade da produção científica, etc.
Assim, uma transição para o ensino universitário de professores do politécnico deve implicar avaliação rigorosa dessas competências, preferencialmente através de concursos públicos, nos quais os candidatos serão avaliados por júris com professores universitários de outras instituições, garantindo independência, exigência científica e critérios comparáveis aos do sistema universitário. Só avaliados por júris exteriores às futuras universidades, os docentes poderão integrar a carreia docente do ensino universitário.
Ricardo Charters-d’Azevedo, S. Pedro do Estoril
Baixa a 100%
A Assembleia da República chumbou projectos de lei que pretendiam que o pagamento do subsídio de doença a portadores de cancro fosse a 100%. Chega, PCP, BE e PAN viram as expectativas defraudadas. PSD/CDS e IL votaram contra, enquanto o PS se absteve. O argumento socialista defendeu que subsídio de doença a 100% deve ser alargado a doenças crónicas e degenerativas incapacitantes. Considero a posição socialista a mais adequada. Não podemos diferenciar doenças graves e incapacitantes. Não faltarão oportunidades para que uma proposta de lei (Governo) ou um projecto de lei (partidos) possam surgir alargando o pagamento na totalidade da baixa por doença.
Ademar Costa, Póvoa de Varzim

Deixe uma Resposta