
Mas a história de Asawa começa longe dos museus que agora ocupa. Nascida em 1926, na Califórnia, filha de imigrantes japoneses, a artista viu a sua adolescência brutalmente interrompida com a ida para o campo de detenção com os pais. Paradoxalmente, foi também durante esse período que teve contacto com aulas de arte, organizadas dentro dos próprios campos — três animadores da Disney, entre eles um cartoonista e um pintor de cenários, também detidos, deram-lhe aulas. “Comecei a desenhar a partir da realidade pela primeira vez. Proporções, mãos, pés, etc… Foi a primeira vez na minha vida que a arte não era algo extra para fazer, mas o principal objeto”, recorda a artista, citada no catálogo. “Desenhar com artistas profissionais livrou-me da amargura que permeava o campo.”
Esse episódio, profundamente traumático, nunca foi totalmente verbalizado na sua obra, mas permanece como uma presença latente. “A minha avó veio de uma casa de um só compartimento numa quinta no sul da Califórnia e foi encarcerada aos 16 anos por causa da sua ascendência japonesa”, sublinha o neto, Henry Weverka, 37 anos, numa conversa com alguns jornalistas portugueses. “Durante anos, foi desvalorizada por ser mulher e uma artista não branca.”
Após a guerra, Asawa ingressou na Black Mountain College, um caso excecional na história da criação artística, que promoveu o ensino experimental e a vida em comunidade numa geografia isolada na Carolina do Norte. Estudou dança, gravura, pintura, design e serigrafia. Foi aluna de Merce Cunningham e de Joseph Albers, seu mentor, que lhe ensinou “a ver”. Devido ao racismo antijaponês, foi-lhe negado um diploma universitário para lecionar arte. Mas ali consolidou uma ideia que marcaria toda a sua prática: a de que qualquer material, por mais banal que fosse, podia tornar-se extraordinário.
Essa filosofia encontra a sua expressão mais icónica nas esculturas de arame. Transformava rolos de arame industrial em formas suspensas de uma leveza inesperada. Laço após laço, construía volumes translúcidos que parecem crescer organicamente no espaço, como organismos vivos, como sementes em expansão. Uma imagem com os filhos (seis) mostra como todos trabalham o material, juntos. Para a curadora Geannine Gutiérrez-Guimarães, do Guggenheim de Bilbau, que colabora na curadoria da exposição com Janet Bishop, do SFMOMA, e Cara Manes, do MoMA, esta relação com o material é central: “Vemos como ela trabalha com materiais disponíveis, elementos naturais, industriais, comuns, algo que atravessa toda a sua carreira.”

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