A organização norte-americana Freedom House divulgou nesta quinta-feira o seu relatório anual onde avalia os direitos políticos e as liberdades civis em 195 países. Concluiu que, pelo 20.º ano consecutivo, houve um declínio da liberdade no mundo, com mais de 50 países a registarem um retrocesso, incluindo os Estados Unidos.
O relatório, intitulado “Liberdade no Mundo 2026: A Sombra Crescente da Autocracia”, constatou que apenas 35 países registaram avanços no que toca às liberdades civis e aos direitos políticos em 2025. Numa tendência regressiva, 54 registaram retrocessos. A Guiné-Bissau, a Tanzânia, o Burquina Faso, Madagáscar e El Salvador foram os países com maiores quedas nas pontuações ao longo de um ano, enquanto a Síria, o Sri Lanka, a Bolívia e o Gabão registaram um maior crescimento no índice de liberdade.
Apesar de grande parte dos indicadores de liberdade e direitos terem sofrido golpes a nível global nos últimos 20 anos, a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão e o respeito pelos processos legais registaram a deterioração mais grave, com um declínio entre 15% e 17% em duas décadas, segundo o relatório. Golpes de estado, conflitos armados, ataques às instituições democráticas por parte de líderes eleitos e o agravamento da repressão por parte de regimes autoritários são apontados como principais causas para este declínio.
A maior variação do ano foi na Guiné-Bissau, que perdeu oito pontos na escala do “Freedom in the World” – agora com 33 em 100. A queda foi justificada com o golpe militar que derrubou o Presidente da República, em Novembro de 2025, seguido do encerramento das instituições democráticas, da suspensão do processo eleitoral e dos órgãos de comunicação social e do encerramento das fronteiras.
A Freedom House agrupa os países em três categorias consoante o nível de liberdade: países “livres”, países “parcialmente livre” e países “não-livres”. O relatório mostra que, nos últimos 20 anos, a percentagem de países “livres” se tem mantido estável, mas mostra uma tendência de deterioração dos países antes considerados “parcialmente livres”, que agora contribuem para o aumento da fatia dos “não-livres”. Por exemplo, em 2018 e 2016, a Nicarágua e a Venezuela, respectivamente, desceram da categoria intermédia para a última. No total, o relatório apresenta 88 países como sendo “livres”, 48 como “parcialmente livres” e 59 como “não-livres”.
Das seis regiões cujas tendências foram analisadas, a Europa é a região que contabiliza uma maior percentagem de países e população “livres” – 81% e 83%, respectivamente –, seguida pelo continente americano que conta com 66% dos países e 72% da população “livres”. No Médio Oriente, a organização norte-americana apenas considera um dos países “livre”, Israel, dois “parcialmente livres” e dez “não-livres”.
EUA menos “livre”
Os Estados Unidos são um dos 54 países que em 2025 registaram retrocessos ao nível dos direitos políticos e das liberdades civis.
A perda de três pontos na escala utilizada – de 84 para 81 – é explicada no relatório pela intensificação dos impasses legislativos – que culminou na mais longa paralisação governamental da história dos EUA –, pelo crescente domínio do poder executivo e pelas medidas da Administração Trump para “minar as salvaguardas anticorrupção”. No que toca à expressão individual e colectiva, contribuíram para o declínio as ameaças contra o discurso político, a repressão a movimentos pacíficos e as represálias contra críticos, cidadãos norte-americanos ou não.
Entre os países “livres”, os EUA foi um dos países com maior declínio, juntamente com a Itália e a Bulgária. Em 20 anos, o país perdeu 12 pontos na escala, o maior retrocesso entre o grupo de 88 nações “livres”.
Também a nível da política externa, este foi um ano de transformação para os EUA. Os cortes no financiamento para a ajuda externa e as organizações internacionais – por exemplo, o desmantelamento dos programas da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) –, as ameaças à soberania de outros países e o envolvimento em acções militares no estrangeiro são alguns dos exemplos dados pelo relatório.
Os lugares no topo da lista voltaram a ser ocupados pela Finlândia – com 100 pontos na escala de liberdade –, seguida da Suécia, Noruega e Nova Zelândia – com 99 pontos. Portugal manteve a pontuação do ano anterior, com 96.
Texto editado por Paulo Narigão Reis

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