A vida de uma família romana quando Lisboa era Olisipo – Observador



Em termos de modas, sabemos que partia tudo de Roma e depois ia se alastrando para o resto do Império. Havia alguma moda específica que só existisse nesta margem atlântica do território romano?
Falta-nos essa informação de forma direta, mas não será difícil de imaginar que as modas eram influenciadas por aquilo que acontecia em Roma. Sabiam provavelmente o que acontecia em Roma com algum atraso e seria através da estatuária das mulheres do Imperador ou de outras mulheres da alta sociedade que eventualmente chegavam a Olisipo. [As modas] Também chegavam através das moedas, que representavam as divindades, naturalmente penteadas e apresentadas com a estética contemporânea. Mas acima de tudo, a moda não evoluía com a mesma rapidez que evolui hoje em dia. Não haveria uma moda específica de Lisboa mas uma tentativa por parte da alta sociedade de imitar os modelos que eram vistos através da estatuária, das moedas e por aí fora.

Sabemos que o Marco tem um escravo que o acompanha em todo o seu percurso, depois quando chega a casa é recebido por um outro escravo, depois para cortar o cabelo há um terceiro… Na alta sociedade de Olisipo, quantos escravos é que tinha em média cada família?
As pessoas muito ricas poderiam ter centenas de escravos. Através de uma lei que saiu no tempo do Imperador Augusto que tinha a ver com a possibilidade de libertar escravos por testamento, limitava-se a quantidade de escravos que se podia libertar. E dizia, por exemplo, que uma pessoa que tivesse de um a cinco escravos só podia libertar até metade. Uma pessoa que tivesse de cinco a dez podia libertar não sei quantos, e depois concluía com o intervalo de 101 escravos para cima. Se existe uma legislação neste sentido, é porque era comum as famílias da alta sociedade terem, às vezes, na ordem das centenas de escravos. Há um outro caso de um senador na época de Nero que foi assassinado por um escravo na sua própria casa, e segundo a legislação romana, quando uma pessoa livre da casa morria de forma suspeita dentro da mesma, todos os escravos, mulheres, homens, crianças, estivessem presentes ou não estivessem presentes, eram torturados e mortos. No final da primeira metade do século I depois de Cristo, mais de quatrocentos escravos foram levados para serem executados. Causou muita comichão em Roma, porque as pessoas achavam que não fazia sentido nenhum estarem a matar mulheres e crianças que não tinham nada a ver com aquilo, só porque houve um escravo que matou o homem. Havia escravos especializados: as cozinheiras, aqueles que tratavam das crianças, aqueles que limpavam a casa e, portanto, vamos ser otimistas e pensar à volta dos dez por família.

Como é que eles eram em termos de rotina? Porque menciona que o Marco e os homens vão aos banhos à tarde, as mulheres de manhã, que o jantar era logo a seguir, quando começava a anoitecer… Homens e mulheres tinham sempre horários distintos ou chegavam a encontrar-se durante o dia?
Dependerá do tipo de família. Nas famílias das classes mais altas, as mulheres não trabalham e estão sempre em casa, não têm uma rotina. Aquilo que se espera delas é que tratem da casa, ordenem os escravos, e que façam as preparações necessárias ao nível da gestão da casa. Nas famílias mais pobres, há mulheres e homens a terem uma rotina semelhante. Passava por acordar perto do nascer do sol, tomar o pequeno almoço naquilo que nós chamamos pastelarias — onde se fazia e vendia o pão e outros alimentos do género — e depois iam à sua vida, para o trabalho. No livro, falo sobre a questão dos banhos, que as mulheres iriam de manhã e os homens à tarde, mas no caso das termas dos Cássios, nem temos a certeza disso. É uma hipótese. Nas termas pequenas, como a que falo no livro, não é possível ter banhos separados por género. E não havia banhos mistos, eram sempre separados. O que normalmente acontecia era as mulheres irem de manhã, porque, na mente de um romano, não têm nada para fazer; enquanto os homens têm a sua rotina, o trabalho durante a manhã, as atividades.

E o que é que fazem os homens mais ricos, então?
Gerem as suas lojas, as suas empresas. No caso do Cássio, eu imaginei que teria uma empresa de engarrafamento de azeite e de manhã tratava dos seus negócios. No caso de serem homens muito poderosos, é também de manhã que recebem aquilo a que os romanos chamavam os clientes, que eram pessoas que estavam sujeitas a oportunidades, os seus antigos escravos, ou simplesmente pessoas de um grau social mais baixo e que todos os dias, pela manhã, se dirigiam à casa dos seus patronos, para prestar homenagem, para se colocarem à disposição, para aquilo que fosse preciso. Também vou lembrar Séneca, que diz que a vida é esta: às vezes estão lá os pobres dos clientes, que mal dormiram, com umas olheiras enormes, cheios de frio, porque o sol ainda nem sequer acabou de romper, e lá está o patrono, deitado na cama, de ressaca, não se quer levantar. Depois levanta-se e não sabe o nome de ninguém. Tradicionalmente era à tarde que tomavam os seus banhos. E estas termas são muito mais do que os banhos que tomavam, são muito mais do que um ato de higiene. Aliás, até diria que a parte de higiene é capaz de ser secundária em relação a tudo.

Os banhos são um espaço também para desporto, atividade física e convívio, no geral…
E também para o contacto social, para os homens trocarem contactos, fazerem negócios, tratarem de política e por aí fora. E é preciso não esquecer que era um tempo em que não havia eletricidade, por isso a vida era sempre muito coordenada pelo sol. O jantar era sempre antes do pôr do sol e as pessoas também se deitavam cedo. É uma rotina pouco animada, ou, se calhar, mais saudável do que aquela que nós temos hoje.





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