Como uma forma de controlar a narrativa?
Certo. Em vez de estarem dependentes de comunicados de imprensa, que obrigariam os meios de comunicação tradicionais a responder ao seu enquadramento, à sua narrativa, poderiam simplesmente ir à volta. Podiam falar diretamente com o público e utilizar essas pessoas, os seus eleitores, para divulgar a sua narrativa, mesmo fora do Twitter.
O Twitter sempre teve menos uso [em comparação com outras redes], mas isso não quer dizer que a informação que lá surge não chegasse a conversas informais. E, em última instância, até conseguiu definir a agenda dos media tradicionais. E o que também constatámos — e contra o que lutámos inicialmente — foi que as pessoas pensavam “bem, qual é a importância disto? São apenas 140 caracteres, o que é que isto importa?”
O que argumentámos na altura foi que não era só sobre o número de caracteres. A relevância eram as hiperligações, as hashtags, todas as coisas que ligam as pessoas a um ambiente de informação maior. Depois os algoritmos funcionariam a favor disso. A maioria das pessoas não gosta de ser exposta a informação que desafia as suas predisposições; preferem estar em câmaras de eco, bolhas de filtro. O algoritmo faz isso, os líderes de opinião, os influenciadores, os influenciadores de moda, qualquer pessoa pode usar isso para criar bolhas de informação nas quais as pessoas entram. E isso molda a forma como percecionam os media tradicionais, a forma como percecionam os seus vizinhos, as suas interações com os colegas de trabalho, que roupas é que acham mais cool. Enfim, tudo.
Mas considera que o Twitter foi a primeira plataforma a ter essa lógica da câmaras de eco e as bolhas?
E a usá-las dessa forma. Não sei se o Facebook também pensou nisso, mas a grande diferença da plataforma Twitter é que possibilitou que as pessoas comunicassem usando estas bolhas de filtro, as câmaras de eco, o que seja, para chegar a pessoas que não conheciam. No Facebook só se alcançavam as pessoas que se conheciam. Em teoria, as publicações não apareceriam no feed de desconhecidos. No Twitter, por outro lado, apareciam apenas para as pessoas da sua bolha.
A questão é que os veículos noticiosos e os líderes de opinião podiam ser seguidos, o que criou esta rede de fluxo de informação. Por exemplo, os membros do Congresso dos EUA podiam apontar para as notícias que queriam que fossem vistas [através de ligações em tweets]. O que percebemos foi que, quanto mais os membros do Congresso, entre 2006 e 2008 e mesmo depois disso, começaram a utilizar o Twitter, mais propensos eram a tentar controlar o fluxo da informação. O uso de hiperligações para histórias, hashtags, respostas e partilhas… As pessoas que mais faziam isto tinham maior probabilidade de obter votos.
Então de certa forma isso comprovou a ideia de que o Twitter podia influenciar as pessoas?
Sim. Quer dizer, não tínhamos dados experimentais, por isso não podíamos afirmar isso com certeza, mas o que podemos dizer é que encontrámos esta relação mesmo mantendo constantes todos os outros fatores que sabemos que afetam a quantidade de votos recebidos. Por exemplo, quão competitivo é o distrito [onde se vota], quanto dinheiro se gastou numa campanha, quantos anos de experiência se tem… Resumindo, os fatores mais tradicionais que permitem perceber o sucesso eleitoral. Conseguimos manter constantes todos os fatores tradicionais que preveem o sucesso eleitoral e mostrar que, mesmo com isso, a pessoa que controlava o fluxo de informação no Twitter tinha ainda mais probabilidades de ganhar do que a pessoa que era suposto [tendo em conta os fatores tradicionais].
Há pouco falou sobre a forma como o Twitter apresentou as hashtags, as menções, os retweets. Essa nova forma de comunicar com os utilizadores mudou a forma de se fazer política?
Sim. Acho que, ao início, essa nova forma de comunicar não era muito bem compreendida pelos políticos — francamente, ninguém percebia. Muito pouca gente percebia como usar aquele poder.
No início o Twitter parecia algo de nicho.
Sim, as pessoas não percebiam bem como usá-lo. Acho que, quando se percebeu, por exemplo, que os algoritmos estavam a colocar as pessoas em bolhas… Acredito plenamente que isto criou públicos polarizados em todo o mundo. É bastante simples: o que pensamos sobre o mundo que nos rodeia, seja na política ou não, baseia-se na informação que temos cognitivamente acessível. E se uma grande parte dessa informação vem do nosso fluxo de informação e se isso responde à nossa psicologia, que nos leva a expor-nos seletivamente a certas coisas e a evitar outras, os algoritmos captam isso e colocam-nos nessas bolhas ou câmaras de eco onde só ouvimos a mesma coisa.
Com o tempo, os políticos, os interesses económicos, os influenciadores, todos descobriram como utilizar isso. E agora chegámos ao ponto em que todos nós nos colocamos em bolhas de informação — e de forma intencional. Trabalha-se o feed do TikTok e o do Twitter de formas que façam pensar: “não quero ver isto”. Sabemos o que evitar para que não continue a aparecer no feed. Todos fazemos isso.
Livro Tweeting to Power, Jason Gainous e Kevin M. Wagner, publicado em 2013
É possível dizer de forma ativa “não quero ver isto” ou “quero ver mais disto”.
Sim, podemos fazê-lo a fazer um like, a deixar um comentário. Ou, se não queremos que apareça mais, a mudar rapidamente de vídeo. Sabemos que, se ficarmos a ver um vídeo, é mais provável que vejamos mais vídeos como aquele. O que acho que aconteceu é que, infelizmente, estes fluxos de informação, por causa do que era falado no “Tweeting to power”, conseguiram contornar os gatekeepers tradicionais e fornecer aos seus eleitores fluxos de informação que eram favoráveis para os políticos. Cada vez mais, o que acontece é que as pessoas recebem fluxos de informação que não apresentam contrapontos, as mentes são cada vez mais preenchidas de forma desproporcional com informação que é unilateral.
Foi o que aconteceu com as eleições de 2016, nos EUA?
Sem qualquer dúvida. Temos dados de 2016, onde analisámos a utilização das redes sociais, incluindo o Twitter. Os dados foram recolhidos tanto nos EUA, como num estudo semelhante feito em vários outros países. Conseguimos demonstrar, em questões como políticas públicas e as atitudes em relação à política, que quanto mais as pessoas dependiam dos meios digitais para se informarem, mais extremas eram as suas opiniões sobre os temas.
Nos EUA, por exemplo, se se perguntasse às pessoas as opiniões sobre temas como a segurança social, a educação, os negócios estrangeiros, as questões sociais, questões LGBTQ+, o aborto… Mesmo controlando e mantendo constantes os fatores que tradicionalmente predizem estas atitudes —identificação partidária, a classe social, a educação, a religiosidade — as pessoas que recebiam mais informação através das redes sociais, incluindo o Twitter, tinham opiniões mais extremas. Eram mais propensas a tomar uma posição radical sobre estas questões e a cristalizar as suas opiniões. Então, se se tiver um público que acaba por ser pressionado a tomar uma posição e, simultaneamente, há uma pressão do grupo — a lógica de “se há pessoas que discordam de mim então são minhas inimigas” — é tudo o que vemos nos EUA agora. Que é um desastre.

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