Ali Khamenei foi uma das primeiras vítimas mortais dos ataques de Israel e dos Estados Unidos da América na madrugada de 28 de fevereiro. No dia em que começou a guerra no Irão, o paradeiro do então Líder Supremo foi um dos primeiros temas a ser levantados, uma vez que rapidamente surgiram imagens da destruição do seu complexo, provocada por mísseis israelitas e norte-americanos. Pouco tempo depois, confirmou-se que o aiatola havia morrido.
Khamenei era a principal figura do regime desde 1989, ano em que passou da Presidência para o cargo de aiatola, precisamente uma década após a Revolução que derrubará a monarquia liderada pelo Xá Mohammad Reza Pahlavi, criando a República Islâmica do Irão. Foi a partir de 1979 que as coisas mudaram radicalmente naquele país, partindo pela mudança drástica das liberdades das mulheres.
Se no regime encabeçado por Pahlavi as mulheres tinham direitos semelhantes aos que teriam se tivessem nascido num país ocidental, a partir daquela revolução, tudo mudaria. A imposição da lei islâmica obrigou as mulheres iranianas a circular com um hijab e limitou os acessos a determinados serviços, mediante autorização dos respetivos pais ou maridos e, como tal, foram surgindo ao longo dos anos vários exemplos de manifestações pela libertação da opressão das mulheres no Irão — algo sempre contestado pelo regime de Khamenei.
É com este contexto, depois da morte do aiatola, que voltaram a circular excertos de uma declaração atribuída a Ali Khamenei, para reforçar a posição deste regime fundamentalista sobre as mulheres. “Allah criou mais uma espécie de animal, a mulher. [As mulheres] são só como vacas e ovelhas. São animais. Allah criou-as somente para o uso pelos homens. Mas Allah criou-as com a forma humana para não assustar os homens. Fora isso elas são só como vacas, ovelhas, cavalos, camelos e mulas”, cita uma publicação nas redes sociais.
No entanto, esta citação está erradamente atribuída ao anterior Líder Supremo do Irão, que entretanto foi sucedido pelo filho. Através do excerto publicado em massa nas redes sociais — e também difundido pelo deputado do Chega Francisco Gomes —, é possível verificar que a frase não foi dita por Khamenei, mas sim pelo aiatola Sayyid Sadiq Shiraz. Apesar de o título ser o mesmo que o iraniano, Sayyid Sadiq Shiraz não está associado ao Irão, sendo uma das principais figuras religiosas no Iraque.
Adicionalmente, neste mesmo vídeo do discurso desta figura religiosa, publicado no YouTube em 2024 com legendas em inglês, reparamos que Sayyid Sadiq Shiraz limita-se a citar um outro autor que não nomeou, referindo apenas ser um “autor islâmico”. O aiatola iraquiano, como é possível verificar, utiliza esta passagem para criticar o ponto de vista deste “conhecido autor islâmico”, defendendo que vai “contra os ensinamento do Alcorão, onde as mulheres são veneradas e respeitadas”.
Não existem registos de Ali Khamenei a dizer que as mulheres são como animais, como afirmam as publicações nas redes sociais. Os vídeos difundidos e erradamente atribuídos ao antigo Líder Supremo do Irão mostram o aiatola iraquiano Sayyid Sadiq Shiraz, e foram também retirados de contexto.
Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:
ERRADO
No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:
FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.
NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.


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