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Eis as apostas de conservação da WWF: Gerês, Caldeirão e cavalos-marinhos no Tejo | Conservação da natureza


A serra do Caldeirão, o Parque Nacional Peneda-Gerês e o estuário do Tejo – estas são três das nove áreas prioritárias para o restauro da natureza identificadas pela WWF Portugal, durante o primeiro ano de actuação da organização ambientalista em território nacional.

O plano de trabalho até 2030 está traçado, e a prioridade é iniciar o restauro nessas zonas, mobilizando recursos e parcerias para o fazer, explicou ao Azul Ângela Morgado, directora executiva da WWF Portugal – o escritório português da associação internacional Fundo Mundial para a Natureza (WWF, na sigla em inglês).

As outras seis áreas prioritárias identificadas no projecto Re-Store Portugal são a serra da Estrela, serras de Aire e Candeeiros, vale do Guadiana e ribeira do Vascão, Alto Tejo e as rias de Aveiro e Formosa. Mas há que começar por algum lado, e as três áreas escolhidas implicam a mobilização de 1,8 milhões de euros em cinco anos – que contribuirão para a meta europeia de recuperar 20% das áreas degradadas até 2030.

Do Gerês à serra do Caldeirão

No Peneda-Gerês, os trabalhos estão a começar para restaurar 50 hectares numa área ardida do único parque nacional de Portugal.

“Na serra do Caldeirão, onde já trabalhávamos, com o apoio da Fundação Coca-Cola, num projecto de 120 hectares de restauro florestal e devolução de água à natureza, vamos restaurar mais 17 a 18 hectares, com o apoio de duas outras empresas”, explicou ao Azul Ângela Morgado, numa conversa de balanço do primeiro ano de actividade da WWF Portugal.

Muito do trabalho da WWF passa pela co-gestão, a cooperação com pescadores ou agricultores, por exemplo, na gestão dos recursos naturais. E o projecto da serra do Caldeirão faz isso também: “Engloba produtores de abacate. Estamos a monitorizar o uso e a gestão mais saudável dos recursos hídricos”, explicou a responsável.

No estuário do Tejo, o alvo das acções de restauro será a conservação de uma espécie descrita como o proverbial “canário na mina”, mas para os ecossistemas marinhos: os cavalos-marinhos, porque são muito sensíveis a mudanças ambientais e degradação das condições do oceano.

“Não é propriamente um restauro de pradarias marinhas ou de sapais puro e duro. É a instalação de abrigos que vão permitir proteger esta população de cavalos-marinhos” explicou Ângela Morgado.

A cadeia de supermercados Lidl vai financiar o projecto, que está agendado para começar em Abril. “O Lidl perguntou aos consumidores o que preferiam? Financiar o estuário, o Caldeirão ou o Gerês? E os consumidores escolheram o estuário. A conservação da natureza também tem de ir ao encontro das expectativas e dos desejos das pessoas”, contou Ângela Morgado.

“É preciso discutir os planos de restauro da natureza com as comunidades”, diz Ângela Morgado

Rui Gaudêncio

“Vamos continuar a trabalhar com espécies emblemáticas, como os tubarões e raias, os cavalos-marinhos do Tejo e com os golfinhos que entram no estuário também, sendo que ambas as espécies são indicadores da saúde do estuário”, acrescentou a responsável da WWF.

Dar uma ferramenta ao Estado

A aposta no projecto Re-Store Portugal a partir de 2026 está relacionada com a Lei do Restauro da Natureza, uma directiva europeia que implica a aprovação de um Plano Nacional de Restauro até Setembro. A WWF é uma das organizações não-governamentais de ambientais que faz parte da comissão de acompanhamento do processo, que está a ser coordenado pelo Instituto Nacional de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

“O Re-Store vai ser muito importante para toda a dinâmica do restauro à escala da paisagem. Só as soluções baseadas na natureza é que vão conseguir prevenir desastres naturais [como os das recentes tempestades e as cheias que causaram] por causa das alterações climáticas. Não pode ser por reacção, é preciso apostar nas soluções com base na natureza, temos de perceber isto”, sublinha Ângela Morgado. “É uma ferramenta que está disponível para o Estado português.”

Só há uma solução para este novo normal climático, diz a directora executiva da WWF, e não exige sequer um raciocínio muito complicado. “Temos de restaurar a natureza perdida, salvar os ecossistemas que ainda estão bem e alocar o financiamento necessário para o fazer. Acho que são ideias simples”, disse Ângela Morgado.

São simples, mas são bem acolhidas pelos políticos portugueses, por quem tem o poder de tomar decisões sobre a nossa vida? “Os governantes que têm o poder de regulamentar é que têm de concordar e não só, têm de agir, sem hesitações e garantir o investimento para que isto aconteça”, sublinha. “É fácil concordar com isto, não é?”

Consistência no financiamento

É verdade, não basta ter planos. É preciso ter dinheiro para passar os planos à realidade. “Podemos ter um plano de restauro lindo, vamos restaurar dez ou 12 áreas, mas de onde é que vem o dinheiro?”, exemplifica a directora executiva da WWF. “Temos de ter um plano acompanhado do investimento necessário para o restauro. A consistência preocupa-nos. Não podemos restaurar um ano, dois anos e depois abandonar o que restaurámos. Temos que continuar a investir no território”, sublinha.

Consistência no financiamento não tem sido uma característica dos planos portugueses – nem das mais recentes estratégias de conservação da natureza apresentadas pelo Governo, que têm sido criticadas como “vagas” quanto à capacidade financeira –, como foi o caso da revisão da Estratégia Nacional da Biodiversidade. O Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável sugeriu mesmo que fosse suspenso o processo de aprovação do documento, para que o ICNF pudesse reformulá-lo, por não prever metas quantificadas, monitorização robusta e mecanismos de financiamento estáveis.

“O nosso papel é este. É dizer que precisamos de investimento e de compromisso financeiro, precisamos do Fundo Ambiental e de outras linhas de financiamento privado, que o Estado tem que catalisar tudo isto para investir, porque o restauro é caro, não haja dúvidas. Não vamos fazer restauro da natureza com meia dúzia de tostões, tem de haver mesmo investimento”, frisa Ângela Morgado.

Envolvimento local

O envolvimento das comunidades locais é também fundamental para que acções de restauro da natureza tenham sucesso – a WWF tenta praticar isso, por exemplo envolvendo-se na co-gestão das pescas, como é o caso da co-gestão da pesca do polvo no Algarve, ou da pesca do percebe nas Berlengas.

“Tivemos uma decisão favorável para apoiar um outro projecto em que vamos entrar com a Universidade de Évora, para a gestão do percebe do Sudoeste Alentejano”, conta Ângela Morgado.

Nos comités de co-gestão, a WWF actua como facilitadora do diálogo com os produtores para estabelecer regras da pescaria, a partir da base e não do topo. “É uma metodologia que a WWF usa em muitos países do Mediterrâneo, na pequena pesca”, explica.

Remover barreiras obsoletas

A participação das comunidades locais é igualmente importante para outro tipo de aposta da WWF, que é a remoção de barreiras obsoletas nos cursos de água. “Se chego ao local e a comunidade não quiser remover a barreira, não consigo fazer nada. É preciso discutir os planos de restauro da natureza com as comunidades”, sublinha Ângela Morgado.

“Fizemos um estudo no Douro, em que demonstrámos que há mais de 1200 barreiras no rio que não têm absolutamente utilização nenhuma, zero. Mas é uma área difícil de trabalhar”, reconhece a directora executiva da WWF. O próprio Estado português está atrasado no seu trabalho. “O Estado tem como objectivo remover X barreiras e não as remove. Há toda uma cultura que não é muito a favor da remoção”, explica.

A Agência Portuguesa do Ambiente apresentou um plano para reabilitar mil quilómetros de linhas de água e realizar mais de 80 intervenções estruturais entre 2026 e 2030, depois de ter calculado que existem mais de 13 mil barreiras nos rios portugueses, muitas delas obsoletas.

A WWF Portugal tem trabalhado na demolição de três barreiras obsoletas em rios, que já não servem para nada, e funcionam como obstáculos à circulação das correntes, das plantas, dos animais, dos nutrientes. Até Junho, esperam conseguir demolir a terceira, no sul de Portugal, depois de terem demolido uma na zona de Santarém e outra no Algarve.



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