Chris Fleming é uma pessoa estranha. Podemos ver isso mesmo em Live at the Palace, o seu segundo especial de comédia de stand-up que saiu na HBO Max no final do mês passado. Conan O’Brien, que é produtor executivo do especial, descreveu-o, num perfil publicado pelo Vulture, o site da revista New York, “a gosma que está dentro do candeeiro de lava”, referindo-se ao líquido translúcido que se vai mexendo dentro do vidro das luzes inventadas nos anos 1960. É que Fleming anda sempre de um lado para o outro, de uma forma extremamente irrequieta e hiperactiva, algo que deve muito ao facto de ter estudado teatro e dança moderna na faculdade. Às vezes até se atira para o chão, outras vem para o lado do palco falar directamente para a câmara.
Gravado ao vivo em Chicago, Live at the Palace mostra-o em palco com um macacão púrpura à Prince – Tony Sartino, o estilista responsável, chegou a vestir o músico – cujas mangas se tiram e sapatos vermelhos cintilantes. Fleming, que aceita todos os pronomes que lhe queiram dirigir goza com a androginia com que se apresenta, a dizer que o primeiro especial que lançou, Hell, saído no Peacock, o serviço de streaming da NBC não disponível entre nós, há três anos, lançou uma “caça ao homem nacional” para encontrar os seus pronomes. Esse especial tinha mais adereços e mais do que aquilo se via em palco.
A comédia de Fleming também anda sempre de um lado para o outro. Brotam tangentes de todos os lados, cheio de especificidade, um gosto muito grande pela palavra, o vocabulário e a repetição, bem como pouca vontade de explorar a sua vida pessoal. Tal como O’Brien, mentor e uma enorme referência na sua mestria a usar a parvoíce (Robin Williams, que é mencionado aqui, é outra, cujo An Evening at the Met, especial de 1986, é uma influência grande para esta hora em específico), Fleming vem da zona de Nova Inglaterra. Com 39 anos, anda há anos a fazer isto, mas só agora é que começa a ter mais atenção. Há mais de uma década, foi-se notabilizando a fazer uma série no YouTube chamada Gayle, na qual interpretava a personagem que lhe dá o nome, uma mulher de meia-idade da zona (foi, aliás, assim que O’Brien o descobriu, recomendado pelo filho).
Fleming refere com frequência nomes famosos. Goza de forma leve com – ou insulta, sempre de maneira casual – outros cómicos e celebridades, de Terry Gross, a apresentadora de Fresh Air, o programa de entrevistas da NPR, a rádio pública americana, a Jimmy Fallon, passando por Seth Meyers, Zach Braff, Mike Birbiglia ou Paul Dano, entre muitos outros nomes. Entre outras piadas, fala das bolachas Oreo, e como são maltratadas enquanto topping em sobremesas congeladas, ficando como se um cartel de droga quisesse mandar uma mensagem, ou do quão irritante é o tipo de homem que se esforça muito por parecer excêntrico – algo que lhe sai naturalmente.
Diz ainda algures que tem pena dos millennials mais velhos (refere que é um millennial mais novo, o que não é verdade) estavam a “preparar-se para um mundo que, puff, não existe”, a “arregaçarem as mangas das batas de laboratório e a ter discussões complexas com os seus professores a beber café” e “agora encontram-se num mundo em que toda a gente se limita a sexualizar Shrek“. Tudo culmina numa óptima parte sobre uma loja de chapéus em que, para evitar que um adolescente o julgasse demasiado, comprou chapéus para os amigos, isto com a ajuda de provas visuais, e uma canção sobre a coisa mais assustadora que viu numa casa assombrada, e não era nenhum dos terrores oficiais.

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