O cronómetro já vai nos 88’ e o FC Porto está a vencer na Luz, no jogo maior da jornada 25 da I Liga 2025/26. Caminhamos para a primeira derrota do Benfica na prova, mas, ainda mais importante, fica cada vez mais larga a auto-estrada para os “dragões” chegarem ao título. É então que Leandro Barreiro, saído do banco 13 minutos antes, acorre a um cruzamento de Ivanovic e faz o 2-2 no clássico. As esperanças dos rivais do FC Porto saíram ainda mais enfraquecidas depois deste domingo, mas podiam ter ficado praticamente desfeitas. O médio benfiquista manteve acesa a chama em Alvalade e na Luz.
Ganhando ontem, o FC Porto ficaria com seis pontos de vantagem para o Sporting (que são, na realidade, sete, graças à vantagem no confronto directo) e dez para o Benfica. A nove jornadas do fim. Esteve quase a conseguir essa dose extra de segurança, mas o Benfica igualou a partida e deixou tudo na mesma no topo da tabela, uma vez que Sporting e Sp. Braga também empataram no outro jogo grande da ronda. Bom, tudo na mesma não será, porque, entretanto, os “dragões” ultrapassaram mais uma jornada sem perderem terreno…
O “herói” da noite começou por ser o adolescente polaco Oskar Pietuszewski, que assinou o 2-0 para os portistas aos 40’ e se tornou – com 17 anos e 9 meses – o jogador mais jovem do FC Porto a marcar no clássico da Luz e o segundo mais precoce da história a fazê-lo, depois do benfiquista Espírito Santo, que tinha 17 anos e 4 meses, no longínquo ano de 1937. Só que, pese embora o peso deste feito histórico, a história do jogo já estava, e continuou, a ser contada por outros protagonistas (Froholdt, outro adolescente, abriu as contas aos 10’ e Schjeldrup reduziu aos 69’). A última palavra pertenceu a Barreiro.
Quando o luxemburguês de ascendência angolana chegou à Luz, então por indicação do técnico alemão Roger Schmidt, muita gente perguntou: “Quem?”… Sim, internacional, mas pelo Luxemburgo. Sim, com experiência na Bundesliga, mas envergando a camisola do pouco conceituado Mainz. Sim, um futebolista com utilidade, mas para fazer exactamente o quê? No final da temporada, Leandro terminou como 13.º jogador com mais minutos e anotou seis golos e três assistências. Esta época, a sua segunda na Luz, já ultrapassou o tempo de utilização na temporada de estreia e contabiliza quatro golos e seis assistências.
Polivalente… e poliglota
Olhemos para o início desta temporada: é certo que o Benfica deixara sair Kokçu, Florentino e Renato Sanches, mas juntou a Aursnes e Manu reforços milionários como Richard Ríos, Enzo Barrenechea e Georgiy Sudakov. Uns mais dados a defender, outros a atacar, eram nomes fortes e que remetiam Leandro Barreiro para o previsível papel de “jogador de plantel”. Mais a mais, apontado como muitos como um número “6” (coisa que os treinadores iam desmentindo), não parecia ter o raio de acção de um verdadeiro “8” e exibia limitações técnicas (nomeadamente em espaços apertados) que o impediam de ser um “10” mais criativo…
E, no entanto, Leandro Barreiro Martins, cidadão luxemburguês nascido em Erpeldange a 3 de Janeiro de 2000, é uma das caras do reconstruído Benfica de José Mourinho.
Começou a carreira no clube da sua terra, o Erpeldange72, e daí seguiu para o Racing-Union, mas não demorou muito a despertar o interesse dos olheiros. No final da temporada 2015/16, então com 16 anos, fez as malas e rumou à Alemanha – o Mainz batera o PSG na corrida ao jovem médio. Foi por lá que Leandro se manteve nos anos seguintes: estreou-se na equipa principal em 2018/19, fez 18 jogos na temporada seguinte e cimentou-se como indiscutível a partir daí – sempre mais de 30 partidas, com golos e assistências, até ao final de 2023/24.
Por esta altura (a estreia aconteceu em 2018), já era internacional pelo Luxemburgo, um país que tem três línguas oficiais (luxemburguês, francês e alemão). Na família (o pai é ferrenho benfiquista, garante), o português também era falado. E Leandro achou por bem juntar a esta já impressionante lista os idiomas inglês e castelhano. Contas feitas, é fluente em seis línguas. Sete, se tivermos em conta que também “fala” muito bem futebol…
Intenso, disciplinado, com simplicidade de processos e boa leitura de jogo, Leandro Barreiro tem sido uma das respostas para os problemas ofensivos do Benfica nesta temporada 2025/26. Marcou ao Nápoles e ao Ajax, na Liga dos Campeões, e frente ao Rio Ave e ao FC Porto, na I Liga. O Transfermarkt avaliava-o em 17 milhões de euros quando chegou ao Benfica a custo zero, baixou a cotação para 15 milhões a partir daí. Para o Benfica, no entanto, ele vale muito mais do que números: é uma garantia de segurança. Mesmo sentado no banco, é um daqueles depósitos à ordem que rendem juros interessantes. Coisa rara e imperdível, portanto.

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