Cante alentejano com toque pop. É isso que os Bandidos do Cante, que se formaram em 2022 para acompanhar os D.A.M.A. e Buba Espinho na gravação da canção Casa, têm para oferecer – pode ouvir-se no disco de estreia, Bairro das Flores, editado em Janeiro. E foi com esse trunfo em nome de Rosa que o grupo de Luís Aleixo, Francisco Pestana, Francisco Raposo, Duarte Farias e Miguel Costa ganhou o 60.º Festival da Canção. O agrupamento já tinha garantido que iria à Eurovisão se saísse vencedor – ao contrário de outros concorrentes portugueses, que anunciaram boicote à competição europeia em protesto contra a presença de Israel no concurso.
Ao telefone com o PÚBLICO esta segunda-feira, Luís Aleixo e Francisco Pestana – o único que não vem de Beja, mas sim de Portel, vila do distrito de Évora – explicam que “algumas pessoas não sabem, mas já estamos nisto desde crianças”. Começaram a ouvir o cante alentejano com os avós, “nas casas do povo das nossas aldeias e vilas. Vimos desse meio e temos o cante enraizado”, partilha Luís Aleixo. Os dois passaram pelo “primeiro grupo coral jovem de sempre”, o Grupo Coral Os Bubedanas, dos quais também faziam parte outros músicos que são agora nomes populares no panorama nacional, como o já mencionado Buba Espinho, que Aleixo acompanha ao vivo à guitarra e voz, ou Luís Trigacheiro. “A partir daí, acho que o cante começou a ganhar uma nova vida, floresceu de forma muito bonita, foi considerado Património Imaterial da Humanidade”, continua.
Luís Aleixo diz que todo este processo “vem de há algum tempo”, mencionando os irmãos Janita e Vitorino Salomé como “grandes embaixadores” do cante. “Estamos a dar continuidade a isso, com o Buba, o Trigacheiro, com os Vizinhos… Se calhar com uma roupagem diferente, mais nova e modernizada”, adiciona. “Acho que, nos Bandidos do Cante, o cante alentejano está nas nossas vozes, isso é o mais importante”, diz, enquanto Francisco Pestana partilha que “estando habituados desde miúdos, é algo que acontece de forma natural”.
Havendo, em termos históricos, uma dimensão política no cante alentejano, incluindo na música da família Salomé, este grupo quer ser “apolítico”. “Os nossos avós trabalharam e lutaram para termos hoje uma sociedade mais digna e com maior liberdade de expressão. Respeitamos isso totalmente”, resume Luís Aleixo. “E é também por isso que podemos ser livres de falar e de cantar as nossas canções e de puxar o lado da união, da partilha e do amor. É aquilo que queremos efectivamente transmitir”, confessa. “Acho que vivemos numa altura diferente, mais livre”, mantém, “não descurando aquilo que essas pessoas viveram… e nós sabemo-lo bem porque vivemos ao seu lado. É um privilégio poder fazer isto desta forma”, menciona Aleixo.
Sobre o boicote, que já levou países como Irlanda, Espanha, Eslovénia, Islândia e Países Baixos a recusarem estar presentes na Eurovisão, que decorre de 12 a 16 de Maio em Viena, Áustria, sublinha que o agrupamento reúne cinco “seres diferentes e individuais” que “pensam pela sua própria cabeça”, respeitando “os pensamentos e ideologias de cada um”. Acrescenta que não seria “justo o grupo tomar uma decisão política conjunta”. Mas não poderá a ausência de uma posição política ser um acto político? “Não, de todo”, frisa Aleixo. “Temos a nossa opinião pessoal, mas não misturamos a nossa arte com política”, insiste.

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