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O racional Tim Maia está (outra vez) no meio de nós – Observador


“É legal, a cultura viva racional”. E Tim Maia não era o único com essa opinião: os músicos João Roberto Kelly e Jackson do Padeiro, o comediante Chico Anysio, até Erasmo Carlos namoraram os livros. A meio da década de 70, aos dez anos de Ditadura Militar, generalizou-se um desencanto na classe artística. O regime opressivo censurou, ameaçou, prendeu e deportou a seu belo prazer qualquer crítico, ou simplesmente quem renegasse os costumes ditos tradicionais da família brasileira. Desarmados, os músicos optaram pela reclusão da realidade: Raul Seixas e Paulo Coelho conceberam uma “Sociedade Alternativa”; Jorge Ben pregou o misticismo católico em A Tábua de Esmeralda; Zé Ramalho e Lula Côrtes percorreram o esoterismo ancestral de Paêbirú; ou Arnaldo Baptista, ex-Mutante, assumiu-se completamente Lóki? – “Você tá pensando que eu sou loki, bicho?”.

No estúdio da RCA, o evangelho do Universo em Desencanto foi adaptado às melodias brilhantes que preparavam há meses. Os músicos, todos vestidos de branco, sem autorização para fumar sequer um cigarrinho, abriam as sessões de gravação com trocas de impressões dos livros de Manoel Jacintho Coelho, de forma a garantir que tinham lido a boa nova; o que vale é a beleza desta música, não iam desistir agora da empreitada porque tinham de vestir uma farda, até há quem, como Paulinho Guitarra, aceite com prazer as imposições do Grão-Mestre. O regime franciscano teve uma consequência inesperada: a voz de Tim Maia soltou-se para um estado de limpidez esmagadora, uma projeção mais grave, um agudo ciciante, uma poderosa ressonância que reverbera em cima de cada nota, mesmo quando canta o que só podemos descrever como propaganda literária:

“Leia o livro
Universo em desencanto
Leia o livro
Universo em desencanto
Leia e vai saber o que é encanto”

▲ A capa do volume 1 de “Tim Maia Racional”, que ditou o grafismo dos dois volumes seguintes da coleção

A banda responde na mesma moeda. O primeiro Tim Maia Racional termina com um inebriante groove de 12 minutos, um coro solar à Sly & the Family Stone, um riff de teclas à Stevie Wonder, e sempre a malhar no mesmo compasso, sem dar a lado nenhum, à George Clinton. O segundo Tim Maia Racional entra a matar com Quer Queira, Quer Não Queira, um ritmo ameaçador esquece o livre arbítrio, queira ou não queira, em breve, “todos vão ler” – e verdade seja dita, a meio desta canção, quem não dança endiabrado a clamar sem pudor a cultura racional é, como sentenciou Dorival Caymmi, ruim da cabeça ou doente do pé.

A RCA foi sucinta: não podemos, de forma alguma, editar estas canções. Tim Maia agradeceu e seguiu em frente; comprou as fitas, fundou uma editora independente, a Seroma Discos, e lançou o primeiro volume de Tim Maia Racional, em 1975, e um segundo volume no ano seguinte, com o apoio logístico da organização de Manoel Jacintho Coelho. Segundo a biografia oficial do músico, de Nelson Motta, que cristalizou como esta carreira é recordada, Tim Maia Racional foi um tremendo fracasso de vendas. Contudo, a história não é tão linear: nos jornais da época multiplicam-se as menções ao primeiro álbum, os jornalistas confessam fascínio pela bizarria, entrevistam o músico e outros séquitos, até o célebre programa Fantástico, da Globo, dedica um especial ao movimento. E mais, após o lançamento, Tim Maia Racional está entre os álbuns mais vendidos no estado do Rio de Janeiro.

O segundo volume de Tim Maia Racional é outra história. A maior dificuldade do músico era alcançar uma distribuição em escala equiparada às grandes editoras, num período em que praticamente não existiam editoras independentes. Depois da novidade do primeiro volume, as vendas de mão em mão, porta em porta, em feiras, nas ruas, e nas pequenas lojas de discos, não conseguem distribuir mais que 20 mil exemplares de Tim Maia Racional, Vol. 2 – estima-se que o último álbum da Polydor vendeu cerca de 300 mil cópias. Os concertos eram outra estratégia de venda, organizados pela Cultura Racional, em recintos improvisados nas ruas, que sequer cobravam bilhete de admissão.





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