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Do rap à política: Balen Shah, o outsider que conquistou o Nepal | Nepal


De óculos escuros — a sua imagem de marca —, Balendra Shah trocou o microfone do hip-hop pelos corredores de mármore de Singha Durbar, no Nepal. Aos 35 anos, o engenheiro e rapper que prometeu reconstruir as fundações morais do país pode vir a ser o mais novo primeiro-ministro nepalês.

“Eles vendem o país por um par de notas, enquanto o povo morre à espera de uma mudança que nunca vem.” É a letra de uma das músicas mais conhecidas daquele que é frequentemente apresentado como a antítese da velha política: um jovem que quebrou um sistema dominado há mais de três décadas por líderes septuagenários.

Balendra Shah cresceu no bairro de Naradevi, em Catmandu. Filho de um praticante de medicina aiurvédica tradicional e de uma dona de casa, revelou desde cedo gosto pela poesia, interesse que o conduziu ao rap.

A infância, porém, não foi marcada por grande entusiasmo escolar. Numa entrevista televisiva em 2018, no Tough Talk, admitiu que durante anos evitava ir às aulas e que só começou a frequentar a escola com regularidade a partir do terceiro ano.

Sob o nome artístico Balen, tornou-se conhecido no início da década de 2010 através de vídeos e batalhas de rap publicados no YouTube. As suas letras, frequentemente críticas à polícia, corrupção e desigualdades sociais, conquistaram uma audiência jovem que se sentia pouco representada pelos partidos tradicionais.

Em 2013, lançou a música Prahari pratikaar, sátira de uma campanha policial contra jovens com cabelo comprido; dois anos depois, participou activamente em protestos durante o turbulento processo de aprovação da nova Constituição nepalesa, utilizando o rap como forma de mobilização política.


Enquanto os partidos tradicionais do Nepal — o Congresso e os Marxistas-Leninistas — ainda apostavam em comícios de massas empoeirados e na distribuição de panfletos de papel, o ex-rapper construía audiência nas redes sociais e cultivava uma imagem de outsider político.

Em 2022, com a sua visibilidade cultural, apresentou-se como candidato independente às eleições municipais de Catmandu, surpreendendo ao derrotar os candidatos dos principais partidos. Tornou-se assim o primeiro presidente da câmara da capital eleito como independente, com cerca de 38,6% dos votos.

A cidade que herdou estava mergulhada em problemas estruturais: rios históricos enterrados sob edifícios, passeios ocupados por comerciantes informais e automóveis estacionados ilegalmente, e centenas de construções que ignoravam normas urbanísticas.

A resposta de Shah foi imediata — e visível. Formado em Engenharia Estrutural, demoliu estruturas ilegais, ordenou a libertação de parques de estacionamento subterrâneos transformados em lojas e lançou operações para desenterrar o rio Tukucha, soterrado ao longo de décadas de expansão urbana.

Entre as iniciativas da autarquia estiveram também a remoção de cartazes publicitários ilegais, a expansão dos serviços de ambulância e reformas no sistema de bolsas de estudo das escolas privadas da cidade. O município introduziu ainda um sistema de candidatura online para bolsas escolares, destinado a reduzir práticas de favoritismo e nepotismo que, segundo críticos, marcavam o processo anterior.

No entanto, a aposta em acções rápidas e mediáticas gerou críticas de quem o acusa de privilegiar gestos espectaculares em detrimento de reformas institucionais mais profundas. Durante o seu mandato, a taxa de execução orçamental da autarquia permaneceu relativamente baixa, e vários confrontos com burocratas e autoridades nacionais paralisaram projectos municipais durante meses.

Adnan Abidi / REUTERS

Após os protestos juvenis que marcaram a política nepalesa, impulsionados por denúncias de corrupção e pela frustração com o crescimento económico lento e o elevado desemprego jovem, Balen consolidou-se, porém, como um símbolo de ruptura geracional.

A ascensão nacional viria pouco depois. Shah aproximou-se do partido Rastriya Swatantra Party e entrou na política nacional, deixando o cargo municipal para disputar as eleições parlamentares. Se aceitar agora o cargo de primeiro-ministro, o nepalês que começou a carreira a rimar contra a corrupção poderá passar a governar o país que durante anos criticou nas suas letras musicais.

Texto editado por Ivo Neto



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