Nunca mais aprendemos!
Não quero “bater mais no ceguinho” (Governo) porque isso seria algo impróprio, numa altura em que devemos é unir esforços para resolver os problemas que o país enfrenta. Pretendo apenas abordar a carga genética que transportamos há quase nove séculos e que reflecte a nossa propensão para a tacanhez colectiva; e o resultado da ancestral cultura da irresponsabilidade generalizada que nos vai castigando com a evidência de fragilidades que não conseguimos eliminar – embora muitos acreditem que somos um povo predestinado para grandes feitos, como foram os Descobrimentos. E que basta a nossa capacidade de improvisar e de “desenrascanço” e a muito suplicada protecção divina para não termos de nos preocupar.
Com o exemplo das recentes tempestades – assim como dos incêndios de Verão –, dói bastante a constatação da inépcia latente em todos os sectores públicos. Tanto dos governantes que elegemos, como da maioria das chefias. Estas, em pirâmides organizativas invertidas, de uma miríade de organismos que não se sabe bem para o que servem e que normalmente se duplicam (ou triplicam), na razão da sua existência. Por isso, continuaremos a avançar, de lição em lição, até ao desastre final.
Celerino Dias, Viana do Castelo
A Linha do Oeste
O ministro Pinto Luz diz que a “Linha do Oeste pode levar seis meses para estar totalmente operacional”. Mas a questão é: a Linha do Oeste estava operacional antes? Pode-se sequer dizer que há uma “Linha do Oeste” funcional? Já houve, porque eu andei nela, mas foi há 50 anos. Esta calamidade veio demonstrar que o nosso país basicamente está pronto para ser reconstruído, mais ou menos de alto a baixo. Casas construídas em leitos de rio, ribeiro, riacho. Casas construídas junto a morros prontos a desabar. Casas construídas abaixo do nível do mar (ou muito próximo disso). Casas construídas em morros isolados, aonde não se chega quando arde. Este país estava pronto para uma espécie de plano Marshall, mas com fundos nacionais (porque a Europa já tem os seus problemas, e bem grandes). Eu acho que com uns 100 ou 150.000 milhões de euros se conseguia fazer um país novo. Qual o problema? Primeiro, onde está o dinheiro? Segundo, onde está o líder para este empreendimento? Terceiro, há muita coisa simplesmente para demolir e fazer de novo; os portugueses estão prontos para isto? Estamos num momento crucial. Se não se atacar o problema a sério, o que se vai fazer é remendar até à próxima crise.
Fernando Vieira, Lisboa
Mercenários no SNS
A natureza dos médicos tarefeiros requer a caracterização da sua função e razão da oportunidade de incorporação no Serviço Nacional de Saúde. Por documento recente da Associação de Médicos Prestadores de Serviços, tutora dos médicos tarefeiros, fica a conhecer-se um “caderno de intenções” enviado à ministra da Saúde em que se propõem contratos de prestação de serviços de “longa duração” que “visam a estabilização das equipas e valorização profissional”, que deverá, segundo a associação referida, justificar a majoração de honorários.
Pergunta-se: conhecida a carência de médicos de família, provada na falta de preenchimento de vagas nos últimos concursos, por que motivo aqueles médicos não se propõem preenchê-las, integrando-se no quadro do SNS, onde o perfil profissional e as exigências pedidas já ali estão esplanados? A proposta dos tarefeiros é um factor de descaracterização/duplicação do SNS e de diluição da frágil hierarquia vigente. A desejável melhoria do SNS, com profissionais estáveis e com carreira, não melhorará com o trabalho nómada agora proposto.
António Sousa Prates, Lisboa
D. Sebastião, em versão soft
Depois de muito ruído iniciado, já há mais de dois anos, sobre possíveis candidaturas e outras projecções, emergiu finalmente alguém como saído ileso e incólume de uma caixa de cobras e lagartos, numa noite de nevoeiro… e chuva. Beneficiou, é certo, da dispersão de votos pela direita e, por fim, da rejeição de uma direita sem benefício de dúvida. Contudo, se não se apresentasse com os provados requisitos mínimos, certamente os resultados seriam penalizadores, logo na primeira volta. O famoso centrão dos eleitores portugueses andava à procura disto há muito tempo (talvez desde 1580). Tentou-o várias vezes com maiorias absolutas em legislativas. Não resultou. Continua a dar, agora, um sinal inequívoco de que está farto de política e quer entregar-se ao trabalho sem preocupações de instabilidades. As limitações de poder do Presidente da República (PR) cerceiam a sua actuação para a consecução das vontades sufragadas. Todavia, a actuação do executivo, com a anunciada boa arbitragem do actual PR, constitui a esperança expressamente manifestada nas urnas. Os eleitores estarão atentos às decepções.
José M. Carvalho, Chaves

Deixe uma Resposta