De volta a João Miguel Tavares
Na quinta-feira, João Miguel Tavares (J.M.T.) voltou a fazer referência, numa neblina quase sebastianista, a Passos Coelho, na sua crónica sobre Maria Lúcia Amaral, por quem parece mostrar grande apreço. Figuras autoritárias, como as mencionadas, atraem este cronista. Não vou, evidentemente, agarrar razões freudianas para tal, mas custa-me entender que se possa gostar da autoridade por ela mesma. A autoridade em si mesma, caso de Passos Coelho, não resolve nada, a não ser dar um look de resolução de problemas. Não esqueçamos as suas palavras na altura da propaganda eleitoral, com uma criança ao colo a dizer que nunca iria mexer nos 13.º e 14.º meses. Foi o que fez logo. Com ou sem desculpas, mentiu. Por que razão gostam algum eleitores da mentira? Já vi pessoas do Chega, chauffeurs de táxi, a dizer que, sem ser o Ventura, o único de jeito ainda é o Passos Coelho. Cara de mau, não, não tem perna de pau, pôs os desgraçados dos empregados de escritório com lancheiras para levar o almoço de casa – coisa que nunca tinha visto antes do mandato desse senhor –, e isso é que agrada ao nosso cronista? Porque quer J.M.T. um Portugal sombrio e infeliz?
Raul Mesquita, Lisboa
O mito dos direitos adquiridos para J.M.T.
No seu artigo de 12 de Fevereiro, João Miguel Tavares (J.M.T.) elogia a postura do Tribunal Constitucional durante a troika, mas ao mesmo tempo condena a “sacrossanta bandeira dos direitos adquiridos”, sugerindo que salários e pensões deveriam ter sido cortados de forma permanente. Trata-se de um argumento sedutor na superfície, mas profundamente problemático. Ignora que os direitos adquiridos não são um capricho ideológico, mas pilares da confiança social e da estabilidade económica. Cortes arbitrários em pensões e vencimentos corroem contratos implícitos entre o Estado e os seus cidadãos, minando a segurança que permite à sociedade prosperar. J.M.T. também compara sectores público e privado de maneira simplista, esquecendo que a crise exigiu respostas complexas, nem sempre simétricas. Criticar a gestão estatal não implica legitimar medidas que violam direitos fundamentais. Mais do que desafiar o “conservadorismo socialista”, é preciso respeitar os limites que previnem injustiças permanentes.
Jorge Amaral
Entrevista a Didier Eribon
Só esta semana tive ocasião de ler a entrevista, no P2 de 4 de Janeiro, a Didier Eribon feita por Margarida David Cardoso: excelente, muito boa, elucidativa, leitura obrigatória para muita, muita gente. Uma entrevista relativamente pequena, mas que depois de lida se compreende muito do que se passa em muitos países, nomeadamente em Portugal. Os dois principais (para mim) temas focados (a questão dos “esquecidos” pelos políticos e a questão dos mais velhos) são explanados de uma forma sintética, mas de uma clareza absoluta que não podemos deixar de reflectir sobre eles e, no meu caso, de concordar inteiramente.
Luís Filipe Mesquita, Covilhã
Cada um é para o que nasce
Está provado. Cada um é para o que nasce e Maria Lúcia Amaral não nasceu para pôr as mãos na massa. Trabalha-se muito no silêncio dos gabinetes. Dito isto, mais ou menos a sua competência situa-se na área dos gabinetes da Praça do Comércio. Aliás como tantos outros. É na Praça do Comércio que reside a suposta competência. Acontece que Portugal é muito mais do que isso. É preciso calcorrear os caminhos das nossas aldeias, das nossas vilas e das nossas cidades para saber o que é este nosso Portugal.
Porque não a regionalização? Será que quem mora por lá não saberá melhor governar o seu terreno do que aqueles que, no ar condicionado dos seus gabinetes da Praça do Comércio, se deslocam apenas em belos carros a alta velocidade para ir aquela ou à outra cidade condecorar uma ou outra família de um bombeiro que morreu por prestar abnegadamente um serviço à sua comunidade e deixam palavras bonitas para consolar o inconsolável? Algo tem de mudar.
José Rebelo, Caparica
Cheias que nem a Rainha Santa evitou
Fr. Manoel da Esperança (1666): “Mas o Mondego, destruidor insolente de edifícios nobres, assi como não receou ofender o sagrado do mosteiro, não teve também respeito a paços nem a hospital. No anno de 1559 se humilharão os paços com hua ruina grande, da qual a S. Rainha, que os tinha levantado, deu avizo por sinais mui evidentes a quantos estavão nelles pera que se resguardassem.”
Se a Rainha Santa não conseguiu evitar cheias nem suas ofensas e humilhações, como esperar que uma simples ministra o fizesse? Também ela se limitou a dar “avizo por sinais mui evidentes a quantos estavão nelles pera que se resguardassem”.
H. Carmona da Mota, Coimbra
<_o3a_p>

Deixe uma Resposta