A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) suspendeu actividades médicas “não críticas” num grande hospital do sul da Faixa de Gaza, após relatos de doentes e de membros da própria organização sobre a presença de homens armados no interior da unidade e preocupações relacionadas com a circulação de armas no seu recinto.
A declaração da MSF parece assinalar a primeira vez que uma organização humanitária internacional em Gaza relata publicamente a presença de homens armados num hospital ou a eventual utilização de uma unidade de saúde para a deslocação de armamento.
A organização médica, com sede em Genebra, informou que as operações não essenciais no hospital Nasser, em Khan Younis, foram suspensas a 20 de Janeiro, devido a preocupações com a “gestão da estrutura, a salvaguarda da sua neutralidade e falhas de segurança”.
Nos últimos meses, pacientes e profissionais “viram homens armados, alguns encapuzados”, em várias zonas do complexo hospitalar, indicou a MSF.
O Ministério do Interior, dirigido pelo Hamas, afirmou, em comunicado, estar empenhado em impedir qualquer presença armada no interior dos hospitais e garantiu que serão tomadas medidas legais contra os infractores. Sugeriu ainda que membros armados de determinadas famílias de Gaza terão entrado recentemente em hospitais, sem identificar os envolvidos.
Israel e o Hamas acordaram um cessar-fogo em Outubro, no âmbito de um plano dos Estados Unidos para pôr fim à guerra em Gaza. Ambas as partes têm acusado repetidamente o outro lado de violações do acordo.
Desde o cessar-fogo, “as equipas da MSF relataram um padrão de actos inaceitáveis, incluindo a presença de homens armados, intimidação, detenções arbitrárias de pacientes e uma situação recente de suspeita de circulação de armas”, afirmou a organização.
Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, mais de 590 palestinianos foram mortos por tropas israelitas no território desde o início do cessar-fogo, enquanto militantes palestinianos mataram quatro soldados israelitas no mesmo período.
A MSF divulgou a suspensão das actividades no Hospital Nasser numa secção de “perguntas frequentes” no seu site sobre o trabalho em Gaza, actualizada pela última vez a 11 de Fevereiro.
Os homens armados foram vistos em áreas do complexo hospitalar onde a MSF não desenvolve actividades, mas a sua presença, juntamente com a suspeita de transferências de armas, representa riscos graves para a segurança de pacientes e profissionais, segundo a organização.
Um representante da MSF disse à Reuters que a organização continua a apoiar alguns serviços críticos no hospital Nasser, incluindo cuidados a doentes internados e cirurgias para determinados pacientes que necessitam de tratamento para salvar a vida.
A organização afirmou ter transmitido as suas preocupações às autoridades competentes, sem especificar a quem foram dirigidos os relatórios.
“Os hospitais devem permanecer espaços neutros e civis, livres de presença ou actividade militar, para garantir a prestação segura e imparcial de cuidados de saúde”, sublinhou.
No mês passado, Israel ordenou à MSF e a outras 30 organizações internacionais que cessassem as suas actividades em Gaza e na Cisjordânia ocupada, caso não cumprissem novas regras, incluindo a partilha de informações sobre os seus funcionários.
A 30 de Janeiro, a MSF afirmou que não iria entregar uma lista do seu pessoal a Israel, depois de não ter recebido garantias quanto à segurança dos seus colaboradores.
As Forças Armadas israelitas afirmam ter visado hospitais durante a guerra por alegadamente operarem no seu interior combatentes do Hamas, acrescentando que partes da rede de túneis do grupo foram encontradas sob instalações médicas. O grupo islamista palestiniano nega utilizar hospitais para fins militares.
Alguns reféns israelitas, capturados durante o ataque do Hamas a 7 de Outubro de 2023 no Sul de Israel, que desencadeou a guerra, afirmaram ter sido mantidos no hospital Nasser, o maior do Sul de Gaza.
Os hospitais são locais protegidos ao abrigo do direito internacional. Tanto os ataques a hospitais como a sua utilização para fins militares são, em regra, considerados violações da lei.
Embora as instalações médicas possam perder o seu estatuto de protecção em determinadas circunstâncias, organizações de defesa dos direitos humanos afirmam que Israel não apresentou provas suficientes, em muitos casos, para justificar os ataques levados a cabo contra estas estruturas durante a guerra.

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