Na única cadeira de Filosofia que frequentei em todo o meu percurso académico, o professor repetia com alguma frequência: se eu bater com a cabeça e ouvir um som oco, a culpa é necessariamente da parede?
Esta pergunta, em que talvez pense mais frequentemente do que deveria, parece-me ideal para servir de epígrafe a um texto sobre o trigésimo aniversário de A Piada Infinita, o monumental romance agora reeditado pela Quetzal, onde ao longo de mil e duzentas páginas (e de 387 notas de rodapé, na edição portuguesa), David Foster Wallace (1962-2008) vai contando uma intrincada história fractal e enciclopédica, cheia de intertextualidades com, por exemplo, Hamlet e a Odisseia, que se situa num futuro mais ou menos distante e onde se discutem temas tão candentes como a indústria do entretenimento, as possibilidades da linguagem ou a roupa interior para adultos.
O nome do romance alude ao título de um filme nele descrito e que alegadamente deixaria os espectadores incapazes de outra preocupação que não a de o verem uma e outra vez. É difícil descrever o enredo, visto que a história tem quatro eixos narrativos que se vão entrecruzando e uma vez que o narrador tende a deixar-se levar por apartes e apartes aos apartes que por vezes nos maravilham e por vezes nos desesperam. Ainda assim, se quiséssemos arriscar uma sinopse, diríamos que o romance orbita em torno dos dramas familiares e tenistas dos Incandenza, mas também das desventuras de uma guerrilha terrorista chamada Les Assassins des Fauteuils Roulants [Os Assassinos de Cadeira de Rodas], que planeiam um atentado com o intuito de libertar o Quebeque do domínio de uma entidade supranacional norte-americana.
▲ A capa da reedição de “A Piada Infinita”, agora publicada pela Quetzal
Já decerto todos os leitores experimentaram a sensação de começar um livro e serem inundados por uma perplexidade que se acentua à medida que as páginas avançam, num movimento em tudo semelhante ao de alguém que, numa tarde amena de outono, descalçasse as suas sandálias e se aproximasse da beira-mar apenas para molhar ao de leve os pés e que, sem saber como, não estando sequer consciente de ter abandonado a costa, vai perdendo o pé e sendo tomado pelas ondas. Felizmente, ao contrário do que aconteceria no lado mais concreto desta metáfora, temos sempre a opção de fechar o livro, devolvê-lo à estante e culpar a opacidade e arrogância do escritor pelo som oco que ouvíamos a cada novo parágrafo.
Todo o leitor de Ulisses, por exemplo, terá sentido algo parecido mais ou menos por volta da segunda página. E é mais ou menos isso que sentimos também (pelo menos, foi isso que eu senti, desculpem, não quero meter-vos à força neste barco) quando incautamente tiramos da estante A Piada Infinita. Na altura pouco predisposto a afogamentos, tornei a arrumá-lo e prometi a mim mesmo que não deixaria passar dois anos sem tornar a tentar, mas entretanto meteu-se a crise do subprime, pelo que aqui estamos. No caso de Foster Wallace, contudo, o ar de guitarrista metaleiro com formação clássica e bandana à Eddie McDowd (que apareceu na TV depois, mas cada um tem as referências que merece) torna mais ligeira a desistência do que no caso de Joyce, cuja estátua se encontra já revestida pela pátina da posteridade e cujas semelhanças físicas com Pessoa o tornam imediatamente reverenciável. E ainda assim. E ainda assim.

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