
Saiu da TAP despedida pelo Governo de António Costa. Levou a contestação desse despedimento para o tribunal, onde há três anos permanece sem evolução. Christine Ourmières-Widener, ex-presidente da TAP, revela ao Observador que espera que o caso termine e admite um acordo com a TAP, assim, a empresa esteja disponível para isso. A gestora mantém a sua defesa de que o despedimento foi ilícito e sem razão, demonstrado na entrega de resultados que diz ter conseguido e lançado a possibilidade de a empresa poder ser privatizada.
Depois de escrever um artigo de opinião no Expresso, Christine Ourmières-Widener acredita que foi um alvo político, “um bode expiatório”. “Fui usada como escudo político” e espera que se comece a olhar para o que diz serem os factos e não os rumores. A gestora, que trabalha numa empresa britânica ligada ao hidrogénio para a aeronáutica, admite que a sua vida profissional e pessoal ficaram contaminadas com o caso em Portugal. E, por isso, dificilmente voltaria à TAP. Em Portugal mantém amigos e admite que ainda é reconhecida nas ruas até “mesmo sem os óculos”.
Depois de feita esta entrevista foi conhecida a decisão do Tribunal da Relação que deu razão à defesa da ex-presidente da TAP na escolha de um tribunal cível para apresentar a ação contra a companhia aérea. Ainda não há qualquer decisão sobre a ação principal.
Esteve em silêncio durante dois ou três anos, depois de sair da TAP em 2023. Porque é que decidiu falar agora?
Dei uma entrevista um ano depois da minha saída [à CNN Portugal], que se centrou talvez um pouco demasiado na forma e menos no conteúdo. Ao fim de três anos, para mim, é o momento certo para garantir que as pessoas compreendem ou recordam os factos, num processo em que não houve qualquer progresso. Portanto, é a altura certa para regressar aos factos, mais do que a qualquer outra coisa.
Qual é o ponto de situação do processo judicial?
Não vou comentar o processo, mas não houve qualquer progresso até agora.
Depois de ter instaurado uma ação contra a TAP, em que reclama 5,9 milhões de euros de indemnização, não aconteceu nada desde então?
Não, nada aconteceu.
Tentou negociar um acordo com a TAP? É possível chegar a um acordo?
Bem, no mundo empresarial é sempre possível haver conversas e chegar a um acordo quando se quer uma conclusão.
Mas está disposta a chegar a um acordo?
Sempre estive disponível para me sentar à mesa e encontrar uma solução, porque, para mim, uma das razões pelas quais estou a falar hoje é precisamente o facto de, passados três anos, não haver qualquer conclusão. E acho muito difícil aceitar que, ao fim de três anos, não se tenha chegado a qualquer acordo ou conclusão, depois de acontecimentos que não foram fáceis para ninguém.
Neste momento existe alguma negociação em curso?
Não há qualquer negociação em curso.
A TAP está interessada em negociar? Já tentou abordar a empresa?
Penso que cabe à TAP responder a essa pergunta.
Mas da sua parte houve tentativas? Acredito que do seu lado tenha havido iniciativas…
Acho que, em qualquer situação deste tipo, isso é possível. Mas até hoje nada aconteceu. Seria muito positivo ver essa situação mudar no futuro.
Tentou falar apenas com a TAP ou também com o Governo?
Neste momento, o processo é com a TAP. Mais uma vez, cabe à TAP clarificar a sua posição.
Além dessa ação cível, existe em Portugal uma investigação do Ministério Público sobre o pagamento da indemnização a Alexandra Reis. Já foi ouvida nessa investigação?
Ao longo deste processo passei por várias fases e reuni‑me com várias entidades. A única coisa que posso dizer é que os factos são claros. Todo este processo foi conduzido por advogados em quem confiava. Eram advogados que trabalhavam para a TAP há anos, que me aconselharam e em quem confiei.
Tem falado com o Ministério Público sobre este caso?
Recentemente não. Mas estou aberta a responder a quaisquer perguntas. O facto é que me limitei a seguir o aconselhamento de especialistas, alguns dos advogados mais reputados do país. Sendo estrangeira, sei que algumas pessoas esperam que um CEO saiba tudo, mas, no mundo empresarial, se quer ser um verdadeiro líder tem de se apoiar em especialistas nas suas áreas. Quando se lida com processos complexos ou sensíveis, é fundamental recorrer a verdadeiros especialistas. E, neste caso, eram advogados absolutamente competentes para aconselhar o CEO de uma companhia aérea nacional.
Baseia a sua defesa nesses argumentos?
Não posso comentar o processo em si. Creio que tudo foi devidamente exposto, mas não posso comentar o processo judicial.
Pediu 5,9 milhões de euros nessa ação. Em que se baseia esse montante?
Isso já foi explicado e resulta da combinação de vários fatores. Mas o importante, para mim, é que este processo não serve para procurar uma nova narrativa jurídica; serve para garantir que se chega a uma conclusão e que os factos são reafirmados. O processo foi conduzido com recurso a especialistas e eu própria fui ao Parlamento explicar os factos. Foram ditas muitas coisas que não correspondem à verdade, tentando também afetar a minha reputação. Tenho‑me limitado a recordar os factos, de acordo com o aconselhamento que recebi, e é por isso que estamos aqui hoje: para voltar ao que realmente aconteceu e garantir que as pessoas o conhecem. Para mim foi também surpreendente que, após a minha última entrevista, as escutas telefónicas que foram publicadas entre o primeiro‑ministro e o ministro das Infraestruturas…
O antigo primeiro‑ministro, António Costa?
Sim. Essas escutas não foram propriamente grandes manchetes, mas voltaram a provar que eu fui usada como escudo político – ou escudo humano, se quiser – porque nada disto [a sua demissão de presidente da TAP] teve que ver com a minha competência enquanto CEO de uma companhia aérea. Foi o Governo a usar-me como escudo político num momento difícil para o Governo. Pessoalmente, gostaria que as escutas pudessem ser utilizadas como meio de prova, uma vez que são claras quanto aos motivos que levaram à minha saída. No entanto, tal como referido anteriormente, não posso comentar nem detalhar processos judiciais em curso.
Em relação à ação que apresentou?
Mas até agora, nada aconteceu. É por isso que estou aqui hoje.
Vê‑se como uma vítima política?
Sim, essencialmente. Vejo‑me como um “bode expiatório” ou escudo político numa situação que nada teve que ver com a minha performance. Entreguei os melhores resultados da história recente da empresa. Fizemos coisas muito difíceis durante o meu mandato na TAP, mudanças e transformações que eram pré‑requisito para qualquer privatização, que hoje é possível. Isso só foi possível porque fizemos coisas difíceis, como a resolução da situação da Groundforce e da manutenção no Brasil, dois dossiês prioritários para o Governo antes de qualquer privatização.

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