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Portugal lidera na confiança e adopção a IA na Europa | Estudo


Se há uns anos a inteligência artificial (IA) parecia coisa de filme de ficção científica, hoje está instalada no bolso e no computador de grande parte dos portugueses. E não estamos a falar de uma minoria tecnológica. Segundo o mais recente estudo da consultora Bain & Company, intitulado “European Consumer Gen AI Sentiment & Behaviour”, Portugal está na linha da frente da adopção destas ferramentas na Europa. Os dados, recolhidos no último trimestre de 2025, indicam que 62% dos inquiridos em território nacional utilizam regularmente a IA generativa, um valor significativamente superior à média europeia de 52%.

O crescimento é galopante. Se recuarmos quatro anos, apenas 6% utilizavam estas tecnologias. Hoje, a penetração é dez vezes superior. Mas o que explica este entusiasmo luso, especialmente quando comparado com a cautela de outros países da União Europeia, como França ou Alemanha? Embora o estudo note que a população inquirida na Península Ibérica tende a ser mais jovem, a demografia não conta a história toda.

João Valadares, partner da Bain & Company, explica ao PÚBLICO que existe uma dimensão cultural relevante. Enquanto no Norte da Europa a adopção é frequentemente travada por um debate mais intenso sobre regulação e riscos, “os consumidores ibéricos tendem a adoptar ferramentas digitais de forma mais informal e flexível, integrando-as na vida pessoal sem esperar validação formal”. Há uma predisposição para a experimentação que se traduziu numa integração mais rápida destas ferramentas nas rotinas diárias.

O fim da curiosidade, o início da utilidade

A fase do “brinquedo novo” parece já ter sido ultrapassada. Os dados indicam uma transição de uma utilização movida pela curiosidade para uma aplicação prática e utilitária. Portugal destaca-se com as maiores taxas de utilização para tarefas específicas: 71% recorrem à IA para escrita básica e 79% para a compreensão de conceitos complexos.

“O que se verifica agora é um uso mais quotidiano, recorrente e orientado para tarefas como escrever, compreender informação e no apoio a decisões”, aponta João Valadares. A tecnologia está a entranhar-se na rotina tal como aconteceu, em tempos, com os motores de busca. Aliás, a própria definição de literacia digital está a mudar. Já não basta saber mexer no rato ou no teclado. Exige-se agora saber “interagir com a IA, fazer boas perguntas e avaliar criticamente as respostas”.

Esta mudança de comportamento está a alterar profundamente a forma como navegamos na Internet. O modelo tradicional de pesquisar no Google e clicar numa lista de links está a ser substituído pelo que a indústria chama de pesquisas “zero-cliques”. Ou seja, o utilizador obtém a resposta directamente no motor de busca, através de um resumo gerado por IA, sem precisar de visitar o site de origem.

As repostas demonstram que os portugueses aderiram rapidamente às ferramentas de IA
Bain & Company

Os números são expressivos: em Portugal, 70% das pessoas ficam satisfeitas com a resposta à pesquisa no resumo gerado por IA em mais de metade das vezes. Isto representa um desafio para marcas e meios de comunicação, que vêem o tráfego para as respectivas páginas diminuir, uma vez que a IA assume o papel de intermediário final. Mais ainda: 7% dos portugueses admitem já ter substituído quase totalmente os motores de busca clássicos por chatbots. “A pesquisa está a evoluir”, confirma o consultor, notando que o topo do funil de vendas — a fase da descoberta — está a ser profundamente impactado.

Confiança ou excesso de optimismo?

Talvez o dado mais surpreendente do estudo seja o nível de confiança depositado nestas máquinas. Portugal apresenta o nível mais elevado de confiança na precisão das respostas da IA (39%), um contraste gritante com o cepticismo francês, que se fica pelos 10%.

Esta confiança constrói-se porque, para as tarefas do dia-a-dia (resumir, escrever, explicar), a tecnologia tende a funcionar bem. No entanto, este optimismo acarreta riscos. “O risco não está na confiança em si, mas na confiança acrítica”, alerta João Valadares. À medida que o uso se expande para áreas mais sensíveis, como o aconselhamento financeiro ou médico, será crucial reforçar a ideia de que a IA é uma ferramenta de apoio falível e não uma fonte de verdade absoluta.

Apesar desta abertura tecnológica, os portugueses não estão cegos aos perigos. Mesmo num mercado entusiasta, 44% dos que não utilizam IA apontam preocupações com a privacidade e segurança dos dados como barreira principal.



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