As revelações da morte de Alexei Navalny ocorrem num momento diplomaticamente sensível para a Rússia. Esta terça-feira, delegações da Rússia, da Ucrânia e dos Estados Unidos da América vão encontrar-se em Genebra, na Suíça, para discutir os contornos de um eventual acordo de paz. A descoberta de que o sistema de segurança russos envenenou o principal opositor de Vladimir Putin pode dar razão ao argumento da Ucrânia e da oposição russa de que não vale a pena negociar com um líder que se rege pela máxima de manter o poder a todo o custo.
Nos jornais e nas agências de notícias da Rússia, o assunto praticamente não existe. O aniversário da morte de Alexei Navalny passou em branco na imprensa do país, fortemente controlada pelo Kremlin, como notou o correspondente russo da BBC em Moscovo. Steve Rosenberg analisou as edições diárias dos principais órgãos de comunicação social russos e concluiu que nem uma linha se escreveu sobre o assunto.
Não é propriamente uma surpresa. O Presidente russo nunca escondeu a animosidade que sentia pelo seu principal dissidente — que lhe fez frente várias vezes até morrer na prisão em 2024. Na sua longa carreira política, poucos opositores conseguiram mobilizar a população russa como ele, retratado como o “indesejável número um” do Kremlin. Carismático e disruptivo, Alexei Navalny foi uma pedra no sapato para Vladimir Putin durante anos e foi alvo de um envenenamento quase fatal em 2020, antes daquele que lhe tirou a vida na colónia penal do Ártico IK-3.
Por tudo isto, o Kremlin não quererá converter Alexei Navalny num mártir morto às mãos do Governo. Num momento em que a liberdade de expressão é praticamente inexistente dentro de fronteiras, o regime russo pretende que o nome do opositor fique esquecido e não seja sequer mencionado. Acima de tudo, Vladimir Putin deseja que ninguém ouse repetir os passos do dissidente e lhe decida fazer frente, nomeadamente enquanto ainda está em curso a guerra que desencadeou contra a Ucrânia.
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Dentro da Rússia, restam poucos opositores. No evento desta segunda-feira que teve lugar no cemitério onde está enterrado Alexei Navalny, ainda estiveram presentes alguns emblemas contra o regime de Vladimir Putin; por exemplo, foram avistadas bandeiras com a cor branca e azul, um símbolo da oposição contra o Governo e contra a guerra na Ucrânia. Pautando-se pela discrição e com a presença de embaixadores estrangeiros em Moscovo, a cerimónia terá sido certamente vigiada pelas forças de segurança da Rússia.
No estrangeiro, é onde está a verdadeira oposição ao regime russo. Depois do início da guerra na Ucrânia, vários dissidentes tiveram de fugir do país natal perante o endurecimento das medidas de repressão interna. Esta segunda-feira, os grupos de opositores realizaram manifestações em várias partes da Europa, da Alemanha ao Reino Unido, para tentar mostrar que, mesmo pouco ativas e com pouca tração dentro da Rússia, ainda existem vozes da oposição a Vladimir Putin.

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