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Leguminosas e urtigas. Católica do Porto lança “semente” para a alimentação do futuro | Reportagem


Há quatro anos que Universidade Católica do Porto põe alunos do secundário, e agora também do 9.º ano, a confeccionar aquilo que antevêem ser a comida do futuro. A iniciativa da sua Escola Superior de Biotecnologia voltou a realizar-se, na sexta-feira, 13 de Fevereiro, reunindo cerca de 80 alunos, finalistas que apresentaram 20 propostas. Várias equipas usaram urtigas e houve mais do que uma escola a deitar mão ao que havia nas hortas das famílias.

Paula Castro, da Escola Superior de Biotecnologia, explica ao PÚBLICO que a instituição situada na Foz do Douro “trabalha há muitos anos com as escolas, sobretudo as secundárias” e que, com o concurso “Inventar a Alimentação do Futuro”, os alunos “são desafiados a serem protagonistas da transição alimentar”. E acrescenta: “Para isso, eles exploram [o tema] e provam [com as suas receitas] que os desafios de sustentabilidade ambiental, nutricional e económica podem ser todos agregados no momento de tomar decisões [que se querem] mais responsáveis. É uma semente e este é um desafio que não se esgota num concurso. A ideia é que eles comecem a perceber que não podem olhar só para um critério”, observa.

Para além de responsáveis, as receitas que o PÚBLICO viu tinham bom aspecto, embora a apresentação do prato não fosse um critério, como nos explicou Elisabete Pinto. Segundo a coordenadora da licenciatura em Ciências da Nutrição e membro do júri do concurso, este ano houve “várias propostas que utilizaram ingredientes com características de sustentabilidade”. Um deles foi a urtiga. “É uma tendência. Nos outros anos, já tínhamos tido urtigas, porque realmente há aí algumas zonas do país que culturalmente têm essa ligação. E aquilo que nós vamos vendo, de ano para ano, é que os alunos também têm esta preocupação de perguntarem aos avós o que era típico, de tentarem ir às origens”, explica.

Paula Castro acredita que se estas matérias forem “incutidas nos mais jovens pela prática, com criatividade, incentivando ao pensamento crítico, incentivando à capacidade de negociar entre os critérios — porque há trade-offs sempre”, iniciativas como estas terão “um efeito multiplicador”.

A apresentação não era um critério no “Inventar a Alimentação do Futuro”, mas os pratos a concurso na iniciativa da Católica do Porto tinham todos bom aspecto
Tiago Bernardo Lopes

Participaram nesta edição do “Inventar a Alimentação do Futuro” 488 alunos, de 37 escolas e com um total de 121 propostas. Este ano, havia duas novidades: respondendo ao pedido de muitos docentes desse grau de ensino, a iniciativa abriu-se pela primeira vez ao 9.º ano, houve também escolas portuguesas no estrangeiro a participar — uma equipa de Timor-Leste foi seleccionada para a final, mas por questões logísticas não pôde estar presente —; e uma nova categoria chamou a atenção para o potencial das plantas selvagens comestíveis na alimentação do futuro.

Numa primeira fase, os alunos tinham de enviar as suas propostas de pratos sustentáveis e inovadores e juntar às receitas os registos de imagem da sua confecção. Dessa selecção, passaram à final 20 receitas.

Lentilhas, tremoços e urtigas

A equipa da Escola Secundária do Entroncamento viajou três horas numa camioneta cedida pela autarquia, por Leiria, por conta o corte de circulação na A1, mas terminou a tarde a reconhecer que a viagem penosa, que ainda teriam de repetir no regresso a casa, tinha valido a pena.

As alunas Ana Carolina Lopes, Eva Santos e Maria Clara Marques venceram o prémio Receita do Ano do Ensino Secundário com uma “lasanha da horta”. Foi a primeira vez que participaram, convenceu-as a professora de Biologia, Adelina Correia. “Decidimos fazer esta lasanha de lentilhas porque queríamos uma alternativa a pratos com proteína animal”, explicou Ana Carolina. A equipa fez “bolo do caco e batata de tremoços” para acompanhar.

“Fizemos literalmente tudo desde o início, o molho de tomate é caseiro, o bolo de caco também, o paté, a massa da lasanha foi feita em casa com batata-doce e farinha, e o molho que fizemos para substituir o bechamel, à base de caju e bebida vegetal, também”, detalhou a aluna, que se esqueceu de um ingrediente. “Faltam as urtigas”, ajudou a amiga Maria Clara.

“Na aula de Biologia, a professora fala-nos muitas vezes das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC), e nós usámos aqui as urtigas, que são uma PANC. Estas vieram da horta da minha avó”, explicou-nos Maria Clara.

Neste caso, a escolha das urtigas prendeu-se com o facto de elas serem uma boa fonte de proteína, explicou o trio, que andou a estudar o valor nutricional de cada ingrediente, e poderem compensar o facto de a lentilhas serem pouco proteicas. O tema faz parte do currículo de Biologia, quando este aborda a biotecnologia e a produção sustentável, mas “o mérito é todo das alunas”, comentou a professora Adelina Correia.

Avisa Maria Clara que as urtigas devem ser manuseadas com luvas — para quem não sabe: picam — e, depois, “é muito fácil”: “é só lavá-las muito bem e cozê-las com água a ferver durante dois minutos, e elas perderem esse efeito; depois podem comer-se à vontade”.

As alunas do Entroncamento que venceram a Melhor Receita por uma equipa do 12.º ano no “Inventar a Alimentação do Futuro”, com a professora de Biologia Adelina Correia
Tiago Bernardo Lopes

“É uma maneira de começarmos a integrar alimentos novos na nossa alimentação, é saudável e também porque nos preocuparmos com o meio ambiente. Associo o futuro a ser uma alimentação mais à base de plantas”, sublinhou, em jeito de remate, Ana Carolina.

Foram “à horta do Tomás”

A outra receita do ano foi para a equipa da Escola Básica Professor Doutor Ferreira de Almeida, de Santa Maria da Feira. Tomás Martins, Nicole Magalhães, Inês Familiar e Carolina Ferreira concorreram com a “tigela da horta sustentável”, incentivados pela professora de Ciências Naturais. Que, por sua vez, soube da iniciativa da Católica “através dos enfermeiros de uma das unidades de saúde” da Feira, contou ao PÚBLICO Inês Barbosa.

Tomás Martins, Nicole Magalhães, Inês Familiar e Carolina Ferreira, de Santa Maria da Feira, venceram o “Inventar a Alimentação do Futuro” na categoria de melhor receita por alunos do 9.º ano; na fotografia, também a docente da Católica Elisabete Pinto
Tiago Bernardo Lopes

Segundo Nicole Magalhães, o grupo queria confeccionar algo que fosse simultaneamente “sustentável, saudável e saboroso”. Vai daí, decidiu “fazer um arroz integral com ervas aromáticas e salteado de edamame com abóbora” e, para acompanhar, fez “uma salada com alface, rúcula, vinagrete, azeite, molho agridoce e raspas de limão por cima”. À parte, havia ervas aromáticas para polvilhar, a gosto, o conjunto.

Da primeira vez que confeccionaram a receita, foram buscar os ingredientes “à horta do Tomás”. À segunda, já para a final na Católica do Porto, isso já não foi possível, mas a sustentabilidade económica do prato também é uma preocupação destes alunos.

Foram entregues mais quatro prémios, que correspondiam a categorias específicas e aos quais só concorreram alunos do secundário. A melhor receita com “Sabor a mar” foi a do Externato Marista de Lisboa: Maria Teresa Cardoso, Adriana Pereira, Leonor Mendes e Rita Gaspar fizeram “almofadinhas do mar de curgete”. O prémio Plantas Silvestres Comestíveis foi ganho pelo Agrupamento de Escolas de Santa Maria da Feira, com a receita “urtigas à mesa”, dos alunos Heitor Nascimento, Lara Mendes e Diana Silva.

O prémio “Leguminosas Luminosas” foi para a equipa do Agrupamento de Escolas do Cerco do Porto, pela receita “Pudim do Sol do Sul”, um pudim feito à base de tremoço por Bruna Sousa e Rafael Gonçalves. Ainda havia a categoria “Street Food”: esse prémio foi para a secundária Júlio Dinis, de Ovar, e para os alunos Ianis Almeida, Rodrigo Oliveira, Rodrigo Andrade e Rodrigo Leite que fizeram “frango aos cones”. Este ano, os prémios foram dados em cartão presente dos centros comerciais Sonae Sierra: 100 euros para a equipa do 9.º ano, 250 para o grande prémio do secundário (a receita do ano) e 150 para os vencedores das subcategorias deste grau de ensino.

O concurso da Católica do Porto, tem sido lançado sempre a 16 de Outubro, por ocasião do Dia Internacional da Alimentação, uma das várias datas que a universidade assinala. E, como lembrou Margarida Silva, uma das docentes da Escola de Biotecnologia e mentora do concurso, lá para o fim deste ano há mais: “Vamos todos fazer receitas o mais sustentáveis possível, porque as alterações climáticas estão aí e estamos todos a trabalhar para a nossa sobrevivência.”

Para além dos vários projectos voltados para a comunidade, nesta escola da Católica do Porto funciona o Centro de Biotecnologia e Química Fina, onde é muito forte a área da valorização de subprodutos alimentares e onde trabalham cerca de 250 investigadores, envolvidos em mais de cem projectos, uma boa parte deles focados na inovação alimentar, venha ela das leguminosas ou das riquezas do nosso mar.



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