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Bruno Pernadas sabe para onde quer ir – Observador



Seguidor da escola de composição de Les Baxter e Quincy Jones, Bruno Pernadas mostrou na sua trilogia inicial uma capacidade prodigiosa de calcorrear vastos terrenos musicais sem perder o norte, indo da folk ao space pop, do psicadelismo ao indie rock mais imediato, tendo sempre em vista a noção de canção. Essa mesma ordem harmoniosa manifestava-se no trabalho gráfico dos seus discos, elegante e cuidado, atributos que não podiam estar mais afastados da capa de Unlikely, Maybe: um espaço de trabalho desarrumado, exemplificando o fenómeno entrópico da criação, signos de um artista em trânsito; a próprio facto de surgirem uma fotografia e um fragmento de outra é reminiscente de uma sequência de frames interrompida, sugerindo essa ideia de um percurso não terminado.

Porque, lá está, não é que o músico tenha abandonado por completo o tipo de estética que o caracterizou — Untitled (raindrops) a abrir e Song in MT-65 a fechar têm aquele cariz lúdico e caleidoscópico que cativou quem ouviu Ahhhhh pela primeira vez e se apaixonou. Mas His World, Spiritual Spaceman e Leo Minor (que, não por acaso, surgem todas de seguida) pautam-se por um cariz bastante mais devedor ao jazz e à black music, seja pelo solo à Funkadelic da primeira, pela contemplação que desemboca num monumento de sopros apontado aos céus da segunda ou pela delicada quietude da terceira.

Nas tais pistas que já tinha dado ainda na fase de Private Reasons, Bruno Pernadas dissera como queria ir beber ao espírito colaborativo de grupos como o Art Ensemble of Chicago ou os Last Poets ou à cena do jazz espiritual dos anos 60 preconizada por figuras como John e Alice Coltrane ou Pharoah Sanders, que já ouvia desde a adolescência. “É música que não tem muito a ver comigo enquanto mote da espiritualidade, porque não sou uma pessoa espiritual naquele sentido; identifico-me sobretudo com o sentido plural e coletivo destes grupos que a fazem. Diz-me muito, cada vez mais”, afirma. De resto, logo a seguir a editar o primeiro disco, foi convidado a integrar um ensemble de Sun Ra por conta da celebração do seu centenário, pelo que “os astros já estavam alinhados nesse sentido”. Como resultado de seguir esse ethos, o artista revela que este foi o álbum mais colaborativo que assinou até à data neste projeto. “Teve menos diretrizes e também mais desobediências, o que levou a coisas giras. Aquelas músicas mais próximas do jazz foram tocadas de forma bastante livre, na verdade”, conta.

Unlikely, Maybe, porém, move-se por mais coordenadas musicais ainda, como o jazz-rap que termina Juro que vi túlipas pela voz de Maya Blandy, que Pernadas conheceu enquanto estava a dar formação na Madeira, vendo no seu sotaque de Manchester o complemento perfeito aos versos que já tinha escritos. Ou a MPB enérgica que dá lugar a um ritmo quase house de Já não tem mais encanto, cantada por Lívia Nestrovski, cuja vinda a Portugal foi aproveitada para gravar esta canção.

Outro dos exemplos, à partida, mais surpreendentes, é o dance hall e o dub evocados por Steady Grace, um dos singles de avanço do disco. É, todavia, aqui que Bruno Pernadas nos revela que, como Walt Whitman, contém multidões, nós é que se calhar não sabíamos. “Eu tenho um disco só de dub que gravei quando tinha 21 anos e que só ofereci aos amigos próximos em CD-ROM, fiz a capa e tudo. Alguns ainda o têm. Portanto, não é um terreno novo para mim, de todo, só que lá está, nunca tinha posto em nenhum disco”, afirma.

A sua versatilidade já estava bem patente para quem estivesse atento: por um lado, pelas suas passagens por grupos como Montanhas Azuis, Julie & The Carjackers, Minta & The Brook Trout e Real Combo Lisbonense; por outro, pelos trabalhos que tem realizado em bandas sonoras para filmes, séries e peças de teatro, mais caracterizados mais próximos da composição orquestral, do desenho de som ou da música dissonante. “Tenho músicas que fiz para orquestra e coisas mais contemporâneas que podia pôr aqui a tocar e não ias saber que fui eu que fiz”, desafia.

“Gosto das coisas que são muito opostas, porque gosto de composição à séria, tipo música contemporânea, e também no jazz para orquestras, mas depois gosto da total liberdade”, continua. Bruno Pernadas, portanto, vai a todas, menos se isso implicar entrar numa fórmula repetitiva, especialmente se tratar-se de tocar a mesma música todas as noites como um autómato. “Pode ser para outras pessoas, mas não para mim. Seria incapaz de ir numa turnê mundial de 50 concertos a tocar exatamente a mesma coisa, com o mesmo som. Se é para fazer trabalho de mão de obra especializada, vou fazer outra coisa que dê mais dinheiro”, declara.

Dentro da pluralidade de sentidos que sugere, Unlikely, Maybe é uma expressão que também traduz um possível sentimento de incerteza, o que se manifesta numa certa melancolia que perpassa o álbum. “Spaceman wants to take us / Into his spaceship / We’ll save the planet /See you in outer space”, ouvimos em Spiritual Spaceman, ao passo que Maya Blandy menciona em Juro que vi túlipas “the end of the world as we know”.

O exemplo mais pungente, porém, ocorre em Campus on Fire, tema central do álbum, que em que Pernadas diz ter-se inspirado no filme Fahrenheit 451 de François Truffaut (adaptado do livro do mesmo nome de Ray Bradbury) e da série Station Eleven (vinda de um romance de Emily St. John Mandel). Em ambos os casos, a perda material de referências culturais coletivas (forçada ou não) obriga as pessoas a ter de decorar histórias e peças de teatro de cabeça. No caso da canção, “é um campus de universidade que está a arder e as pessoas perdem a lógica de existir, indo parar a esse sítio já próximo do fim do mundo em que tens de decorar as coisas para as poderes partilhar porque a tecnologia toda desapareceu”, explica.

De acordo com o artista, é por essa razão também que o álbum começa com uma amiga sua a dizer “I thought that I was gonna miss things like TV and telephones, but surprisingly enough I didn’t” (“Pensei que ia sentir falta de coisas como televisão e telefone, mas, surpreendentemente, não senti”). É como uma prova da nossa capacidade de adaptação, mas também uma espécie de luto antecipado para um desastre que se avizinha pela tecnologização desenfreada das nossas vidas.

“A humanidade neste momento ainda estava a tempo de parar com tudo isto e a criar um sítio melhor. Ou seja, mandar tudo abaixo, parar com os telefones, com as apps, com a inteligência artificial. Ainda estávamos a tempo, mas como não querem parar, porque economicamente não interessa, o que vai acontecer é que vai haver uma catástrofe tecnológica que se vai traduzir na vida das pessoas. Pronto, e também há um bocadinho essa reflexão nessa música, no His World e no Spaceman”, afirma.





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