
Fala-se frequentemente da língua portuguesa como uma “língua do futuro”. A expressão repete-se em discursos institucionais, relatórios estratégicos e celebrações oficiais, quase como uma verdade adquirida. Mas convém perguntar: futuro em que termos? E sustentado em que ações concretas?
É certo que o português é hoje uma das línguas mais faladas no mundo, com presença em vários continentes e relevância crescente em contextos geopolíticos estratégicos. Contudo, a dimensão demográfica, por si só, não garante influência internacional. A história mostra que as línguas afirmam o seu peso global não apenas pelo número de falantes, mas pela capacidade de se imporem como instrumentos de conhecimento, poder económico e produção científica.
A língua portuguesa constitui a matriz identitária da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. É elemento unificador de países com percursos históricos distintos e realidades económicas desiguais. Funciona como património comum e como elo cultural. No entanto, essa centralidade simbólica não assegura automaticamente relevância no sistema internacional. Uma língua pode unir, pode emocionar, pode representar identidade. Mas, para influenciar, precisa de mais.
A consagração do Dia Mundial da Língua Portuguesa pela UNESCO, celebrada desde 2020, reforçou o reconhecimento internacional do português. É também língua oficial ou de trabalho em organizações como as Nações Unidas, a União Europeia, o Mercosul e a União Africana. Contudo, importa ir além do estatuto formal. Em que medida o português é efetivamente utilizado nesses espaços como língua de produção estratégica? Quantas decisões estruturantes são pensadas e redigidas em português?
A expansão da língua através dos descendentes de emigrantes e do ensino do português como língua estrangeira constitui um sinal positivo. Novos falantes surgem, novas gerações mantêm a ligação linguística, novas universidades incluem o português nos seus currículos. O estudo “Languages for the Future”, referido pelo Instituto Camões e realizado pelo British Council, identifica o português como uma das línguas estratégicas para as próximas décadas. A avaliação baseia-se em critérios geopolíticos, económicos, culturais e diplomáticos.
Ainda assim, o mesmo relatório sublinha que o ensino do português ao nível universitário permanece limitado no Reino Unido. Se é reconhecido como estratégico, por que não é amplamente oferecido? Este desfasamento entre reconhecimento e investimento revela um problema estrutural: a promoção da língua portuguesa tende a viver mais do discurso do que de políticas consistentes.
Outro ponto crucial prende-se com a ciência e a inovação. Vários estudos apontam que a projeção internacional do português depende, entre outros fatores, do aumento da produção científica em língua portuguesa. Mas será suficiente publicar mais artigos? Quando comparado com o inglês, o impacto global continua profundamente desigual. A maioria dos investigadores dos países lusófonos publica em inglês para garantir visibilidade e reconhecimento internacional. O resultado é paradoxal: quanto mais internacional é a investigação, menos a mesma circula em português.
Na II Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial foi defendida a necessidade de afirmar o português como língua de ciência e inovação. A ambição é legítima. A questão é saber se existem condições concretas para a concretizar. Estamos dispostos a investir em revistas científicas de referência em língua portuguesa? Estamos preparados para valorizar academicamente quem publica na nossa língua? Ou aceitámos, sem debate profundo, que o conhecimento de ponta se faz inevitavelmente noutra língua?
O futuro da língua portuguesa não se decidirá em conferências nem em proclamações simbólicas. Decidir-se-á na forma como é ensinada, usada, financiada e defendida no quotidiano. Decidir-se-á na coragem de investir nela como língua de ciência, de inovação e de pensamento crítico, mesmo quando isso exige contrariar a tendência dominante de subordinação ao inglês.
Se a quisermos verdadeiramente como língua global, não basta invocar o número de falantes ou o peso da história. É preciso estratégia comum entre os países que a partilham, compromisso político continuado e uma visão que vá além do orgulho identitário. Na verdade, uma língua afirma-se quando produz conhecimento, quando gera valor económico e quando participa ativamente nos grandes debates do seu tempo.
A língua portuguesa tem dimensão, tem história e tem potencial. O que ainda precisa de provar é se tem vontade coletiva. O seu futuro não é inevitável. Será aquilo que formos capazes de fazer dela.

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