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Deixar os investimentos só para os homens? Elas dizem que “o dinheiro não tem género” | Dia da Mulher


Foi ainda no ensino secundário que Bárbara Barroso recebeu os primeiros sinais de que o seu destino seria o mercado financeiro. Os testes psicotécnicos já indicavam Economia e Gestão, “mas, como temos uma idade em que somos muito teimosos, não quis saber nada disso”.

Já na faculdade, Bárbara levava todos os dias um diário económico debaixo do braço. “Não entendia metade do que estava lá escrito, mas ia-me interessando”, explica. Aos 22 anos, conheceu um trader espanhol que a introduziu aos investimentos.

Bárbara Barroso

Descreve que, inicialmente, “investia em instrumentos financeiros alavancados” – o que significa que, com quase dinheiro nenhum, podemos ter uma grande exposição. Um “cocktail explosivo de ganância e iliteracia” que fez com que perdesse todo o seu dinheiro, equivalente a “uma entrada para uma casa”. Foi aí que procurou entender mais sobre literacia financeira.

De acordo com o International Survey of Adult Financial Literacy, da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), Portugal ocupa o 13.º lugar num grupo de 39 países relativamente à literacia financeira, com uma pontuação global de 63,4 pontos, superando ligeiramente a média da OCDE de 62,7.

Bárbara questionou-se: se toda a gente precisa de dinheiro, de casa, e se vai relacionar com isso, “porque é que ninguém nos explica nada?”. Actualmente, é CEO do MoneyLab, laboratório de literacia e educação financeira que procura “capacitar as pessoas para tomarem melhores decisões sobre as suas finanças pessoais”.

Aponta particularmente para a discriminação que ainda existe na área de investimento. “As mulheres tendem a gerir o orçamento doméstico, mas o ‘investir’ ainda é narrado com uma linguagem e um imaginário masculino”. Um motivo que diz “afastar muitas mulheres”.

A acrescentar, grávida do primeiro filho, Bárbara descreve que lhe retiraram uma proposta de emprego por esse motivo. “Era uma posição de topo, eu era o perfil ideal, mas quando disse que estava com três meses, retiraram a proposta”, explica. Ainda na mesma gravidez, tentaram contratá-la aos sete meses. “Ou seja, tive o bom e o mau.”

Carolina Campos Dias, advogada de Direito Fiscal, nota que, apesar de uma evolução positiva e mais mulheres em lugares de destaque, o cenário institucional ainda revela que “historicamente, se foram criando núcleos predominantemente habitados por homens”. Reforça que a sobrecarga doméstica retira “disponibilidade mental para pensar em investimentos de forma estruturada”, contrariamente ao que acontece do lado masculino.

Para a advogada, este cenário de falta de tempo e de redes de acesso heterogéneas faz com que as mulheres possam ficar “paulatinamente para trás”. O chamado “fosso da confiança” é considerado um dos maiores obstáculos à participação feminina no mercado de capitais.

Carolina Campos Dias

Um estudo da Mastercard revela que 36% das mulheres portuguesas sentem que dedicam menos tempo à gestão financeira do que a outras tarefas domésticas. A falta de confiança é apontada como um entrave por 18% das mulheres, o dobro da percentagem registada nos homens (8%).

“O que é meu é meu”

Carolina ainda assiste a algumas mulheres que dizem “dessas coisas são os maridos que tratam”. Não é o caso de Rita Piçarra. Reformada aos 44 anos, é casada com separação total de bens. “O que é meu é meu, o que é do meu marido é dele”, explica.

Nota que as mulheres “delegam muito aos homens a gestão do dinheiro e das poupanças”, algo que considera errado. Para Rita, não faz sentido “trabalharem 40 horas por semana para depois delegarem a gestão de algo que deu tanto trabalho a ganhar a outra pessoa”. Preocupa-se também com a geração mais nova. “Vou a escolas secundárias e as miúdas dizem-me: ‘Ó Rita, mas eu quero casar com um homem rico’”.

O pai tinha 54 anos quando faleceu de ataque cardíaco. Um momento-chave que definiu o objectivo claro de se querer reformar aos 50 anos. “Percebi que a vida pode acabar muito mais cedo do que estamos à espera.” Atingiu, porém, a liberdade financeira antes disso, graças ao seu percurso como CFO na Microsoft.

Rita Piçarra

Crescida na Serra das Minas, “subúrbios de Lisboa”, Rita foi a primeira da família a ter educação no ensino superior. Descreve uma falsa percepção de origens financeiras. Os conhecimentos passavam por “fazer um budget, ver quanto a empresa ia facturar e pagar impostos”. Investimentos, porém, diz ser algo bastante diferente. “Foi pela minha própria mão que lá cheguei.”

A barreira à entrada não é apenas técnica, mas também simbólica. Rita Piçarra sublinha que “se uma corretora usa um jogador de futebol num anúncio, está a direccionar-se ao público masculino”, afastando potenciais investidoras através da comunicação.

Este desequilíbrio prolonga-se até ao topo da pirâmide financeira: Carolina Dias nota que, embora as mulheres já marquem presença como fundadoras — “com a ideia, o drive e a visão” — o desfasamento prático mantém-se, uma vez que o capital “ainda está maioritariamente concentrado na parte masculina”.

No entanto, as investidoras observam um aumento do interesse geral nos últimos três anos. Para Bárbara e Rita, a literacia financeira é a ferramenta máxima de empoderamento e liberdade. “Dinheiro não tem género”, resume Bárbara.



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