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Kiko Femenía esteve em Barcelona, em Madrid e em lado nenhum | Futebol internacional


Há, no futebol espanhol, um jogador que pode contar aos netos que jogou no Barcelona e no Real Madrid. Mas essa é apenas parte da história. O que ele não precisa de dizer é que só jogou na equipa B desses dois clubes – ambos o contrataram, mas nenhum apostou nele.

Aos 35 anos, Kiko Femenía está na fase final de uma carreira incomum – e foram raros os golos como o que marcou neste domingo no triunfo (2-0) do Getafe frente ao Betis.

Tentemos resumir a bizarria. Formado no Hércules, Femenía chegou a jogar pelo clube na I divisão. E tudo começou mal. Na estreia, foi lançado aos 60 minutos frente ao Athletic Bilbao e falhou a primeira acção no jogo. E a segunda. E a terceira também.

O treinador Esteban Vigo estava a ficar fora de si e uma reportagem do Canal + mostrava, a partir da linha lateral, os gritos do técnico. Ao lado, o veterano Rufete, um histórico do futebol espanhol, pedia ao treinador que não tirasse Femenía do jogo e não gritasse com ele. Femenía estava a ter um ataque de ansiedade e mal conseguia respirar.

Rufete, depois de reclamar com a postura do próprio treinador, esteve alguns minutos na linha lateral a pedir ao jovem extremo-direito que respirasse e a incutir-lhe calma. Femenía lá se recompôs e acabou, segundo o Canal +, a fazer uns 15 minutos finais de boa qualidade.

Nessa temporada, Femenía estava numa equipa que as memórias mais prodigiosas acharão curiosa: por lá andaram o já referido Rufete, mas também David Trezeguet, Javier Farinós, Nelson Valdez, Javier Portillo, Tote e até Royston Drenthe.

Terminados os ataques de ansiedade, Femenía ainda jogou 34 partidas nessa temporada e acabou a ser contratado pelo Barcelona, que só o achou útil para a equipa B – Femenía caiu da primeira para a quarta divisão. Fez pouco, mas fez o suficiente, ainda assim, para o Real Madrid achar que havia ali qualquer coisa – mas mudaram de ideias rapidamente.

Femenía foi parar ao Alcorcón, da terceira divisão, mas convenceu o Alavés a levá-lo novamente ao primeiro escalão, em mais uma volta na montanha-russa futebolística. Mas com uma condição: ser lateral. Femenía chegou a contar que inicialmente não gostou da mudança de vida, mas não sabia que isso lhe valeria mais uma voltinha no carrossel: teve direito a Premier League.

Quando chegou ao Watford, Femenía já não era o extremo promissor que Barcelona e Real Madrid acharam capaz de se tornar um desequilibrador de primeira água. Quando foi para Inglaterra, Femenía já era, aos 27 anos, um lateral.

Como tantos outros, era visto como pouco produtivo como extremo, faltando qualquer coisa no um contra um. Mas era-lhe reconhecida a velocidade e, sobretudo, a tremenda resistência para correr o jogo todo.

Como lateral, jogou vários anos na Liga inglesa e conquistou o estatuto de jogador bastante fiável, mesmo que nunca se tenha tornado ofensivamente decisivo: apenas dois golos e 11 assistências em cinco temporadas.

No Villarreal, primeiro, e no Getafe, desde o último Verão, Kiko Femenía está na recta final de uma carreira difícil de explicar. Era um jovem criativo que um gigante espanhol achou ter potencial de craque. O outro rival espanhol, apesar de nada o sugerir, achou a mesma coisa. Afinal, havia apenas um lateral muito resistente e com estatísticas modestas – mas suficiente, ainda assim, para sobreviver a uma carreira que nunca foi propriamente aquilo que parecia. E isso já não é coisa pouca.



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