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O artista plástico carioca Jefferson Rib descobriu ainda na infância a força simbólica do carnaval das escolas de samba — experiência que hoje atravessa toda a sua produção artística. Neto de uma integrante da Beija-Flor de Nilópolis, ele guarda como uma das memórias mais marcantes da infância as madrugadas em que era acordado pela mãe para assistir ao desfile da escola na televisão. Décadas depois, já vivendo em Portugal, e após uma transição profissional da cenografia para as artes visuais, Rib transformou essa herança cultural na exposição Bum Bum Paticumbum Prugurundum, que abre no dia 14 de março de 2026, às 17h, na Galeria Allmo, no Porto.
A mostra reúne dez obras que dialogam com o universo simbólico das agremiações do Rio de Janeiro, já a partir dos títulos: Carranca da Mangueira, Mesmo Proibido, Olhai por Nós e Rosa Maria Egipcíaca, dentre outras. A exposição propõe uma leitura artística de enredos e personagens que atravessaram quase 100 anos de desfiles, reafirmando o papel das escolas como espaços de criação estética, transmissão de saberes e resistência cultural, conforme palavras do artista.
Nascido na capital do Rio de Janeiro e criado em Nilópolis, na Baixada Fluminense, Jefferson Rib formou-se em cenografia e concluiu mestrado sobre a relação entre indumentária de época e o cinema brasileiro. Em 2018 mudou-se para o Porto, onde passou a desenvolver uma trajetória autoral nas artes visuais, participando desde então de exposições individuais e coletivas. A produção faz com que ele interaja com diferentes técnicas, como pastel, guache, óleo, acrílica e linogravura, além de incursões pela escultura.
“Das minhas memórias de infância, há uma de um evento que acontece apenas uma vez ao ano — talvez por isso mesmo guardada com imenso afeto dentre tudo aquilo que carregamos ao longo da vida. Era ser acordado pela minha mãe, lá pelo meio da madrugada ou já na primeira luz do dia, porque a Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis, agremiação da cidade onde cresci, estava prestes a começar seu desfile no carnaval”, relembra o artista.
Povo brasileiro
Em meio aos carros alegóricos e aos milhares de integrantes fantasiados que atravessavam o Sambódromo, ao som do samba-enredo do ano, estava a avó dele, na ala das baianas, o que gerava a expectativa para que a transmissão televisiva captasse, ao menos por um instante, a presença dela na Marquês de Sapucaí. “Daqui para lá e de lá para cá, mais que uma recordação familiar, o carnaval tornou-se a principal referência do meu trabalho”, assinala.
As escolas de samba surgiram, no Brasil, nas primeiras décadas do século XX e, ao longo de quase um século (a primeira disputa oficial ocorreu em 1933), consolidaram-se como espaços de expressão artística e construção de narrativas históricas e identitárias do povo brasileiro. O título da exposição recupera a onomatopeia que remete à sonoridade das baterias das escolas de samba e também ao enredo apresentado pelo Império Serrano, no carnaval de 1982.
Prolongamento da passarela
Para Rib, a mostra funciona como um prolongamento visual do que acontece na passarela do samba. Entre as obras apresentadas está uma escultura em cerâmica inspirada em uma imagem emblemática do desfile da Beija-Flor de 1989, Ratos e Urubus. Na peça, Rib recria um Oxalá coberto por um véu preto, referência ao Cristo Redentor ocultado no desfile por determinação da Justiça a pedido da Igreja Católica.
“A partir desse princípio carnavalesco, personagens antes soterrados pela oficialidade histórica vão sendo revelados, o sagrado ganha contornos diaspóricos e a vida assume a forma do simbólico”, acrescenta Rib. Foi após mudar-se para Portugal que o artista passou a desenvolver um trabalho mais autoral. Para ele, emigrar, além de um desafio, foi uma auto-descoberta.
“Eu não imagino o que teria sido da minha vida artística e profissional hoje, se eu não tivesse emigrado. Foi aqui em Portugal, sem amigos, sem estar envolvido com o grupo que eu estava no Rio de Janeiro, que eu me vi sozinho, com vontade de ainda criar, expressar coisas, que comecei a desenvolver um trabalho meu, através da pintura, da ilustração”, relata.
Brasil plural
Desde então, Rib tem ampliado sua investigação estética, transitando entre pintura, gravura e escultura. Para ele, cada obra define o meio mais adequado para sua realização. “Procuro entender o que quero dizer, o que tenho vontade de dizer e qual o melhor meio para expressar isso. Tipo: acho que uma imagem combina mais com tinta a óleo, mas depois penso: acho que uma escultura para transmitir a ideia faz mais sentido. Então vou para a escultura. Passeio nessas linguagens a partir do que a obra está pedindo”, afirma.
A exposição no Porto marca também um momento importante em sua trajetória: é a primeira vez que o artista ocupa uma sala dedicada exclusivamente ao seu trabalho. Para Rib, a mostra funciona como um fragmento do que poderia ser um desfile de escola de samba — uma espécie de relicário visual que reúne memórias, símbolos e narrativas que ajudam a imaginar um Brasil plural.
“Em resumo: a escola de samba é uma festa que existe há quase um século e é inimaginável como uma manifestação negocia e sobrevive por 100 anos. E acho que é muito importante marcar essa manifestação como uma fonte de saber, um lugar de identidade, de ruptura, de sonhar um Brasil mais alegre, festivo”, menciona.
E complementa: “Acho que a gente é muito bom em fazer festa. É uma forma de existência e resistência também. É muito importante, estando em Portugal, e sendo brasileiro, fazer com que meu trabalho seja um ponto de reflexão”.

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