
Acha que é por isso que o Irão construiu um eixo de resistência em todo o Médio Oriente?
Sim. Depois da guerra contra o Iraque [1980–1988], o Irão passou a preferir não se defender nas suas próprias fronteiras, embora seja exatamente isso que tenha de fazer agora na guerra com os Estados Unidos e com Israel. Percebeu nessa guerra que não consegue ter Forças Armadas convencionais, porque ninguém lhe vende tanques, artilharia ou aviões, e por isso um Exército convencional não é uma opção. Daí a aposta em mísseis, drones e, antes disso, na criação de milícias aliadas no Líbano, Iraque, Síria e Iémen, como o Hezbollah e outros grupos. Estas forças servem para defender o Irão a partir do mundo árabe e para desviar a pressão militar de Israel e dos Estados Unidos para campos de batalha árabes. Ter estas capacidades no mundo árabe passavam também a funcionar como dissuasor contra um ataque ao Irão. Portanto, o eixo de resistência, de certa forma, foi construído inicialmente com base numa estratégia que os iranianos chamavam de ‘defesa avançada’; ou seja, defender-se fora de fronteiras contra um futuro ataque contra o país.
Uma capacidade avançada de dissuasão, então.
Sim. Pudemos assistir ao colapso dessa defesa avançada quando Israel decapitou o Hezbollah e enfraqueceu o Hezbollah. Depois, a Síria caiu em dezembro de 2024 [com o fim do regime do antigo Presidente Bashar al-Assad, aliado do Irão]. A partir daí, os EUA e Israel deixaram de ter receio de atacar o Irão.
Está a dizer que esta espécie de destruição parcial do eixo de resistência acabou por empurrar Israel e os Estados Unidos para atacar o Irão?
Sim. Às vezes não devemos perder-nos nos rótulos que colocamos nas coisas. Chamar terrorista ao Hezbollah, falar em proxies iranianos, etc., serve para os definir como maus, como negativos. Mas isso na verdade não nos diz nada, em termos analíticos, sobre que funções é que estão a desempenhar. A função que desempenham é pressionar Israel e os Estados Unidos para que não ataquem o Irão. Para o Irão, os seus proxies não eram tanto uma arma ofensiva, mas sim um escudo defensivo. Portanto, quando se diz que o Irão não tem um sistema de defesa aérea, isso é verdade, porque o Irão contava com o Hezbollah como sistema de defesa aérea. Israel não atacaria o Irão, porque, se o fizesse, o Hezbollah poderia atacar Israel. Esse equilíbrio desmoronou depois de 7 de Outubro. O resultado foi que Israel e os EUA deixaram de ter qualquer problema em atacar o Irão, porque esse escudo caiu.
Como Nasrallah tornou o Hezbollah um dos maiores inimigos de Israel e semeou o caos no Líbano
No livro, também diz algo que considero interessante sobre o eixo de resistência. Refere que, por exemplo, o Hezbollah tem alguns interesses em Teerão e que também consegue influenciar a política iraniana. Como é que isso funciona?
Porque o eixo de resistência é uma arma do Irão, mas como é composto por pessoas, não é uma arma convencional. Ou seja, quando o Irão estabelece uma relação com o Hezbollah ou com as milícias no Iraque, eles também estabelecem uma relação consigo. O Irão tem influência sobre eles, mas eles por vezes também têm influência sobre o Irão. E é preciso ter isso em conta. Portanto, o Hezbollah, as milícias iraquianas, os Houthis iemenitas, não são forças estrangeiras nos solo que ocupam. É um pouco como alguns exemplos na América Latina, em que existe uma organização separatista que é, sim, uma milícia armada, uma organização de guerrilha, mas também controla um território. Portanto, tem uma base social. Tem interesses próprios ao mesmo tempo. Tem de responder à sua própria base. No eixo de resistência, os proxies também têm os seus interesses e também os defendem, para além de apoiarem o Irão.
Terminou o livro em 2024. Aconteceu muita coisa entretanto, houve a guerra dos Doze Dias e agora temos uma guerra em grande escala. Acha que o Irão estava preparado para esta guerra em concreto?
Bem, o Irão estava mais preparado para esta guerra do que estava para o que aconteceu em junho de 2025. Tem razão quando diz que muita coisa aconteceu desde então. Mas o livro não é sobre comentar o dia a dia dos acontecimentos. O que descrevo neste livro tem a ver com a lógica fundamental das decisões de segurança e de política nacional do Irão. E isso continua lá, a ideia da resistência continua lá. A estratégia iraniana de defesa avançada colapsou. Agora há uma grande guerra, há uma segunda grande guerra em curso, e não sabemos para onde as coisas vão caminhar. Se quisermos perceber como pensa a liderança iraniana sobre as ameaças, sobre a região, porque é que seguiu políticas que a trouxeram até este ponto é para isso que o livro foi criado.
Nessa lógica, aborda no livro que — nas guerras todas que o Irão travou — existe sempre um conflito paralelo dentro do regime entre moderados e revolucionários. Acha que esta guerra em 2026 veio dar força aos mais radicais?
Sempre houve este debate no Irão entre aqueles que acreditavam na importância esmagadora de resistir aos Estados Unidos e de organizar o país em função disso e entre aqueles que defendiam que o Irão devia concentrar-se no seu desenvolvimento. Houve Presidentes iranianos como Rafsanjani, Rouhani e o movimento reformista no Irão, que basicamente queriam abrir o Irão para o exterior. Mas abrir o Irão implica pôr fim à resistência e ter uma visão muito diferente dos Estados Unidos. O anterior Líder Supremo, e agora o seu filho, quiseram essencialmente defender a ideia da resistência. Acreditam que o mais importante é proteger a independência do Irão face aos Estados Unidos. Ao contrário dos reformistas que diziam que o mais importante era desenvolver o Irão e só depois resistir ao exterior. Mas esse grupo perdeu sempre. E agora, com outra guerra, o Presidente Trump pensou que, ao atacar o Irão, iria fortalecer os reformistas. Ou seja, ao matar o Líder Supremo, removeria o grande defensor da resistência e o sistema regressaria a onde estavam os reformistas, como Rouhani, como Rafsanjani. Mas aconteceu precisamente o contrário. Na verdade, os ataques israelo-americanos ao Irão só vieram convencer o sistema de que sempre teve razão. De que não se pode confiar na América, de que a América quer destruir o Irão. De que confiar na América é um erro.

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