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Azul | PÚBLICO


Uma das coisas interessantes de ser jornalista de ambiente é tentar compreender como nós, humanos, vemos o mundo que nos rodeia. É complexa, e muitas vezes destrutiva, a relação entre a humanidade e aquilo que denominamos “a natureza”. Extraímos recursos para produzir bens e construir cidades, mas, ao mesmo tempo, custa-nos imenso a mudança de certas paisagens – o desaparecimento de uma praia, por exemplo.

Portugal já perdeu para o mar uma área equivalente a 1380 campos de futebol, afirmou José Pimenta Machado, presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), numa conferência de imprensa realizada quarta-feira no Porto. Esta estimativa refere-se à perda de território costeiro registada desde os anos 50 até à actualidade, o que corresponde a uma área total de 13 quilómetros quadrados. É litoral que foi e já não volta. Vamos ter de aceitar.

O objectivo da apresentação no Porto, que contou com a presença de Maria da Graça Carvalho, ministra do Ambiente e da Energia, era cartografar os estragos que as tempestades fizeram no litoral e, simultaneamente, apresentar um plano para recuperar a costa e proteger as populações.

O investimento total anunciado é de 174 milhões de euros e inclui desde intervenções urgentes de limpeza de praias, reparação de acessos e estabilização de arribas, até obras mais longas e estruturais. Há muito trabalho pela frente, sugeriu Graça Carvalho, que também concedeu esta semana uma entrevista à nossa jornalista Clara Barata, em parecia com José Pedro Frazão, da Rádio Renascença.

Parte do trabalho de recuperação do litoral passa pela injecção de inertes em praias que “emagreceram”. A APA estima ser necessário devolver à praia do Forte Novo, no Algarve, por exemplo, o equivalente ao conteúdo de 400 piscinas olímpicas cheias de areia.

“Vamos colocar aqui mais de um milhão de metros de areia no fundo para estabilizar toda esta zona aqui do Algarve”, disse Pimenta Machado apontando para uma foto da Quarteira, em Loulé. É aquilo a que Clara Barata chamou dívida de areia, há uns anos, numa série de trabalhos premiados do Azul sobre erosão costeira. Uma conta que nunca fica saldada, um encargo quase constante para políticos, técnicos e cofres públicos.

A reposição de areia permite não só recompor a paisagem, mas também proteger dinâmicas económicas importantes ligadas ao turismo. Enquanto for possível, haverá esse esforço de garantir que a época balnear vai abrir como sempre. Há muitos meios de subsistência em jogo e o que as pessoas esperam, quando vão à praia, é encontrar um areal condigno. É uma aspiração humana legítima?

Não, pelo menos para a cientista italiana Clara Armaroli, professora da Universidade de Bolonha. Quando a entrevistei há uns anos, esta investigadora surpreendeu-me com a seguinte perspectiva: a ideia de que a reposição de areia é sempre preferível à construção de paredões não deve alimentar ilusões sobre a disponibilidade eterna deste recurso.

“A areia não é eterna. E a boa areia não estará disponível para sempre”, recordava a investigadora Clara Armaroli, sublinhando que nenhuma paisagem é perpétua. Com o nível do mar a subir, a praia que conhecemos está destinada a transformar-se, ou talvez mesmo desaparecer. E, por isso, é essencial que a nossa própria relação com a costa mude também.



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