Nem a libertação de 400 milhões de barris, como medida de emergência mundial, parece alterar as expectativas da indústria do petróleo. O preço do crude voltou a ultrapassar os 100 dólares por barril, nesta quinta-feira, mostrando que os ataques a refinarias e a navios apanhados no bloqueio do estreito de Ormuz, por onde passa 20% da produção mundial de petróleo, pesam muito mais nas perspectivas imediatas.
O barril de Brent, que serve de referência para o mercado europeu, para entrega em Maio, voltou a ultrapassar os 100 dólares ainda na quarta-feira e manteve-se durante horas acima dessa fasquia. Porém, por volta das 10h desta quinta-feira, os mesmos contratos já se negociavam em torno dos 98 dólares.
Portugal participa no gigantesco desbloqueio de parte das reservas mundiais de petróleo, que foi anunciado na quarta-feira. Segundo o Governo, libertará dois milhões de barris, equivalente a 10% da sua reserva estratégica que, aos níveis actuais, permitiria fornecer o país durante 93 dias.
A ideia é forçar os preços a baixar junto do consumidor, ou pelo menos minimizar as próximas subidas, que já se adivinham face ao comportamento do preço do crude na produção.
Regiões como a União Europeia, altamente dependentes da importação de energia, podem vir a pagar esta factura não apenas na estação de serviço mas também sob a forma de mais inflação. Tudo depende da duração do conflito naquela região do globo, que tem alguns dos principais produtores mundiais de petróleo e gás natural.
Nas últimas horas, o alegado ataque iraniano a dois petroleiros ancorados ao largo do Iraque mostrou ao mundo que o desbloqueio de barris de emergência tem um efeito apenas temporário no mercado. O barril de crude saltou os 100 euros depois das primeiras notícias daquele ataque. A guerra que estalou depois de EUA e Israel terem atacado o Irão, assassinando o ayatollah Ali Khamenei, parece longe do fim.
O Irão declarou, entretanto, que os esforços para controlar o preço daquela matéria-prima serão inglórios e que o preço do barril poderá duplicar.
“Preparem-se para petróleo nos 200 dólares por barril, porque o preço do petróleo depende da segurança regional que vocês desestabilizaram”, disse, ainda na quarta-feira, o porta-voz do comando militar iraniano, Ebrahim Zolfaqari, citado pela Reuters.
Bolsas perdem e juros ameaçam
A instabilidade reflecte-se nas bolsas. Nos EUA, os principais índices encerraram ontem no vermelho e na Ásia, onde o dia já caminha para o fim, com o Nikkei, na praça de Tóquio, a deslizar mais de 1%. Na Europa, o arranque segue o mesmo panorama: Londres, Paris, Frankfurt, Madrid têm os seus índices a recuar ligeiramente, tendência igualmente do PSI, na bolsa de Lisboa, a recuar cerca de 0,5%.
Se a inflação na União Europeia (UE) subir, num cenário de conflito prolongado, o Banco Central Europeu poderá voltar a intervir nas taxas de juro, fazendo-as subir, tal como sucedeu na sequência da crise energética após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022.
A escalada do preço do petróleo, gás e outros produtos derivados e a expectativa de que o BCE possa subir as taxas de juro perante a ameaça de mais inflação, começou já esta quarta-feira a agravar os encargos do Estado português com a sua dívida.
Para muitos analistas, parece cada vez mais provável uma intervenção até Julho. Uma decisão que penalizará famílias e empresas, que pagarão mais para se financiar. A guerra no Irão também ameaça a estabilidade das taxas de juro na banca comercial. A taxa Euribor a 12 meses está a subir e em máximo de um ano, o que pode reflectir-se negativamente em contratos de crédito a rever em Abril.
O índice europeu Stoxx está a caminho da sua sétima queda diária em nove dias. “As acções europeias são vistas como activos mais vulneráveis, dado que a sua economia assenta numa indústria de manufactura que consome muita energia e para quem o petróleo é uma importante parte da sua estrutura de custos”, explica Marija Veitmane, directora de análise de capital na empresa State Street (EUA), de serviços financeiros.
O preço do gás natural também continua a subir nesta quinta-feira, tendo subido logo 6% na reabertura dos mercados, para 53 euros/MWh.

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