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Viciados em jogo online: “Em menos de uma hora fazia desaparecer cinco mil euros” | Apostas online


Para celebrar o 18.º aniversário, Tiago (nome fictício), entrou pela primeira vez num casino – espaços escuros, sem janelas, que procuram esconder a luz do dia a desaparecer lá fora. “Entrei lá com 20 euros, saí com 250”, explica, admitindo que foi essa vitória que lhe deu a ideia de que o jogo poderia ser uma fonte de rendimento estável. Com esta mentalidade e a chegada da pandemia de covid-19, o vício instalou-se.

Para Tiago, hoje com 25 anos, “o período crítico era sobretudo à noite”. Tinha apenas 17 anos quando fez a primeira aposta no Placard, ainda no ensino secundário. Era uma forma de entretenimento com o grupo de amigos, inicialmente inofensiva. Em pouco tempo, as slots entraram na rotina e passaram a ocupar o silêncio das horas a fio em que apostava online. Por vezes, jogava “das nove da noite às nove da manhã” e “em menos de uma hora era capaz de fazer desaparecer cinco mil euros” que poderia ter escolhido levantar da sua conta de jogador. Foi aí que percebeu a transição de entretenimento para problema.

Só no terceiro trimestre de 2025, o sector do jogo online atingiu os 297 milhões de euros em receita bruta em Portugal. Uma das fontes fiscais digitais mais lucrativas do Estado, que, de acordo com o Serviço de Regulação e Inspecção de Jogos (SRIJ), conta com cerca de 4,9 milhões de jogadores registados em plataformas licenciadas. As slots representaram 79,2% das apostas online em jogos de fortuna ou azar.

A dopamina, a adrenalina e a anestesia emocional que o jogo proporcionava tornaram-se determinantes para Tiago. Os depósitos rápidos, o autoplay e o feedback audiovisual são características das aplicações de apostas que, de acordo com o psiquiatra Pedro Morgado, “influenciam fortemente o comportamento compulsivo”. As plataformas procuram encurtar o tempo entre aposta e resultado, “através de técnicas persuasivas com volume agressivo de notificações, bónus, ‘missões’ e personalização”.

Tiago recorda que no Natal de 2022 recebeu dinheiro de familiares e, “três dias depois, tinha perdido tudo”. O depósito foi feito com urgência, tirando-o da mesa de jantar até ao multibanco. Tranquilizava-o saber que, nessa noite, “teria dinheiro na conta para gastar à vontade”.

Com o tempo vieram as mentiras, a manipulação e a vergonha — não como decisões conscientes, mas como adaptações progressivas a uma realidade que exigia segredo. Pedia dinheiro à avó sem dizer a verdade, tentando proteger os pais, porque “o medo era desiludi-los”.

O secretismo é comum em situações de vício e uma tentativa de a pessoa evitar consequências imediatas – como conflitos, perda de confiança ou restrições financeiras. É também uma forma de evitar que familiares ou amigos procurem impedir “o acesso ao comportamento”, explica Pedro Morgado. Num contexto em que a vergonha, a culpa e o estigma são muito elevados, “este ciclo de ocultação reduz, porém, o apoio social, aumenta o isolamento e, paradoxalmente, pode intensificar o jogo como escape”.

Susana (nome fictício), no entanto, “não escondia o vício”. Começou a apostar na altura da pandemia quando “o Placard e as apostas desportivas tiveram um ‘boom’”. Agora com 26 anos, recorda sentir-se de parte por ver influenciadores e amigos a fazerem dinheiro com o jogo, estando ela a trabalhar turnos a fio sem grande retorno.

Instalou a Betclic e recebeu um bónus inicial. “De repente parecia brilhante: acertava em todos os jogos.” Depois de vários meses a jogar, as slots tornaram-se o jogo de eleição e Susana refere nunca mais ter sentido a mesma adrenalina que sentia na altura.

Inicialmente, “os depósitos eram baixos e esporádicos”. Mas, com os bónus que a aplicação lhe dava para a incentivar a jogar, começou a apostar com frequência e a “ganhar pequenos valores até conseguir levantar o dinheiro” — já que há algumas regras para fazer levantamentos.

Quando conseguiu resgatar 2500 euros, foi ao centro comercial e gastou cerca de metade em roupas. “Era uma sensação de ostentação: ‘Agora posso’.” Acreditou que aquilo poderia ser o seu futuro. Nos primeiros meses, chegou a ter 12 mil euros na conta, mas entre Outubro e Dezembro perdeu o dinheiro “e o ordenado não chegava”. Começou a recorrer a créditos do banco e foi aí que percebeu que “a relação com o jogo já não era saudável”.

Pedro Morgado explica que “o jogo deixa de ser mero entretenimento quando passa a dominar a vida da pessoa” e quando “a perda de controlo expressa uma dificuldade em parar”.

Susana chegou a pedir apoio à mãe, tal como Tiago fez com a namorada e com os pais. Ambos prometiam que iam parar de apostar, mas, para Susana, o dinheiro servia para “pagar as contas — e tudo o que sobrava era para jogar”. Chegaram a recorrer às ferramentas de auto-exclusão, que permitem excluir a conta do jogador pelo tempo que assim definir. Segundo estudos da Associação Portuguesa de Apostas e Jogos Online (APAJO), cerca de 80% dos jogadores dizem conhecer estas ferramentas, mas apenas cerca de 40% as utilizam.

A associação tem procurado normalizar o uso destes mecanismos através de campanhas de sensibilização e mensagens integradas nas plataformas, defendendo que os limites devem ser encarados como o cinto de segurança de um automóvel: não impedem a condução, mas reduzem o risco quando algo corre mal.

Ainda assim, as barreiras tecnológicas têm um limite claro. Ricardo Domingues, director da APAJO, explica que, quando alguém se auto-exclui, mas procura continuar a jogar, “acaba por entrar no pior caminho possível”. Foi o caso de Tiago. Com as portas do mercado regulado fechadas, encontrava alternativas no mercado ilegal onde, diz, “para nos enterrarem, não exigem nada”. “São um paraíso.” Na altura, contava com mais de 50 contas em casas de jogos e apostas online.

A auto-exclusão é, para Pedro Morgado, facilmente contornável. O psiquiatra explica que, quando tem vontade de jogar, “a pessoa desvaloriza consequências futuras e procura gratificação imediata”. As plataformas ilegais podem agravar o comportamento aditivo devido a uma “menor protecção do consumidor, potencial design mais agressivo e menor capacidade de regulação”. Quando o período de auto-exclusão terminava e Tiago recebia emails que o relembravam que a conta havia sido reactivada, “era um chip que o fazia voltar”.

Susana reconhece hoje que, durante os períodos mais intensos, “não queria verdadeiramente parar”; queria apenas ganhar o suficiente para sair e recuperar o que tinha perdido. Tiago tinha o mesmo raciocínio circular, a convicção persistente de que a próxima sessão resolveria tudo.

“Dou graças a Deus por ter batido no fundo do poço”

Foi em Agosto de 2025 que Tiago jogou pela última vez. A namorada tinha uma caixa onde guardava dinheiro que recebia em ocasiões especiais. Em alturas em que o dinheiro já não era suficiente e a coragem de pedir aos pais não era a mesma, começou por “tirar uma nota de 20 euros da caixa”.

Como a namorada não abria a caixa com frequência, Tiago pensava que teria tempo de repor as notas. Um dia, acordou com a namorada a remexer na caixa, preocupada e a perguntar pelo dinheiro: “Fiquei parado, estático, só a olhar para ela.”

Foi quando pensou ter perdido uma relação de quase nove anos, o emprego e a confiança dos pais que procurou ajuda numa comunidade de apoio baseada na partilha entre pares. “Dou graças a Deus por ter batido no fundo do poço.”

Também Susana descreve que o vício do jogo traz a “perda de muitos valores, da essência e daquilo que se tem como perspectiva”. “Magoamos muitas pessoas à nossa volta.” Os primeiros meses de recuperação foram duros. “Não dormia e tinha dores no corpo”, conta. “Parecia abstinência de drogas.”

Ambos consideram que este é um vício invisível, que ainda “sofre de preconceito”. Não é algo palpável e, por isso, é “ignorado na sociedade”.

Para o director da APAJO, “existe um certo alarme social em torno do vício do jogo que, na perspectiva da associação, não é sustentado pelos números disponíveis”. Explica que, com base em dados do Portal da Transparência do SNS, são “cerca de 700 pessoas em acompanhamento”. Já no caso do álcool, “são cerca de 20 a 30 mil pessoas”. Ricardo Domingues refere que, apesar de ser “uma escala completamente diferente”, não significa que “o problema não seja sério”.

Especialmente junto dos jovens. A percentagem de portugueses com 15 e 16 anos que dizem ter problemas relacionados com o jogo é superior à média europeia. Segundo relatório do European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs (ESPAD), relativo a 2024 e que inquiriu quase 114 mil jovens, os portugueses estão em linha com os europeus no que toca a slots ou jogos de lotaria, mas acima quando se fala de apostas desportivas ou com animais. 64% dos estudantes portugueses admitiram ter apostado a dinheiro em jogos desportivos no último ano; a média europeia situou-se nos 55%.

Para Susana, o processo de recuperação passa por voltar a sentir aquilo que o jogo tentou anestesiar. Com uma dívida de 40 mil euros, “voltar a sentir é difícil”, mas a aprendizagem de mecanismos para lidar com o vício é um passo importante. Tiago está em recuperação há seis meses e vive um dia de cada vez: “Hoje, quando me for deitar, vou estar agradecido porque estive mais um dia sem jogar.”



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