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“Dia histórico”: 110 anos depois, tambor-falante regressa à Costa do Marfim | Descolonização


O histórico djidji ayôkwé (o nome vernacular significará algo como “pantera-leão”), instrumento sagrado do povo ebrié que em 1916 foi confiscado em Abidjan pela administração colonial francesa, foi finalmente recebido na capital da Costa do Marfim esta sexta-feira, “um dia histórico” marcado por um muito aguardado “momento de justiça”, como frisou Françoise Remarck, ministra da Cultura e da Francofonia do Governo marfinense.

Com três metros de comprimento e 430 quilos, o djidji ayôkwé era, historicamente, utilizado para transmitir mensagens rituais, que conseguiam percorrer mais de 20 quilómetros, e também para alertar os aldeões, por exemplo, para a ocorrência de operações de alistamento militar forçado levadas a cabo pelos colonos franceses.

Os deputados franceses haviam, em Julho último, aprovado por unanimidade uma lei que permitia a restituição deste monumental tambor-falante esculpido em madeira e espoliado há pouco mais de um século. Há cerca de um mês, realizou-se, em Paris, uma cerimónia formal de devolução. Agora, eis a transferência material do djidji ayôkwé finalmente consumada.

A entrega deu-se no aeroporto de Abidjan, na presença de Françoise Remarck, de representantes da embaixada de França na Costa do Marfim, de personalidades do sector cultural e artístico e, ainda, de chefes tradicionais dos ebriés. “Vivemos hoje um momento de justiça e de memória que marca finalmente o regresso do djidji ayôkwé à sua terra de origem. A culminação deste processo de restituição é fruto do compromisso forte e determinante do Presidente da República, Alassane Ouattara, e da diplomacia activa levada a cabo com o seu homólogo, o Presidente francês, Emmanuel Macron”, disse Remarck durante a cerimónia, que incluiu rituais e danças locais.

O tambor-falante será, num primeiro momento, transferido para um espaço seguro para a sua aclimatização, antes da sua instalação definitiva no Museu das Civilizações da Costa do Marfim, segundo o protocolo estabelecido entre esta instituição marfinense e o Museu do Quai Branly, em Paris (em cujas colecções o djidji ayôkwé fora integrado em 2006, mas onde nunca esteve exposto).

“Graças a uma forte vontade política e a uma diplomacia activa, o tambor-falante está finalmente de regresso à sua terra, após mais de um século de ausência. Kwaba! Kwaba! Kwaba!”, escreveu Alassane Ouattara no X. Kwaba é uma saudação tradicional na língua local dos ebriés, expressando alegria, boas-vindas e respeito por alguém ou algo que regressa ao lar.

Djidji Ayôkwé (que, além de se traduzir como “Pantera-Leão”, pode também significar “o grito do leão”) representa a autoridade, a protecção e a capacidade do tambor para se fazer ouvir com uma potência semelhante à dos grandes predadores da selva. Para os ebriés, este nome ilustra a ideia de que o tambor não é um simples objecto, mas uma entidade viva que “ruge” para convocar a comunidade, advertir sobre perigos ou transmitir a voz dos antepassados.

Confiscado pelas autoridades coloniais francesas em 1916, foi transferido para França em 1929, primeiro para o Museu de Etnografia do Trocadéro​ e, posteriormente, para o Museu do Quai Branly. A sua devolução faz parte de um processo mais amplo iniciado por França em 2017 para repatriar bens culturais que haviam sido confiscados durante a administração colonial francesa. França já devolveu anteriormente, por exemplo, alguns tesouros reais ao Benim e um sabre histórico ao Senegal.

O Senado francês aprovou por unanimidade, em Janeiro, um projecto de lei para a lei-quadro que Emmanuel Macron promete desde 2017 e que visa facilitar as restituições de bens culturais roubados às antigas colónias. Devido ao princípio da inalienabilidade dos bens incorporados nas colecções públicas francesas, ainda em vigor, as devoluções têm vindo a acontecer lentamente, um caso de cada vez, sendo sempre preciso, para cada instância, aprovar uma legislação específica no Parlamento.



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