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Brasileira cria rede de apoio digital para dar suporte a cuidadores de pacientes | Empreendedorismo


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A trajetória profissional da paulistana Marina Ortiz Caiuby deu uma guinada nos últimos anos. Ex-profissional da área de gestão de patrimônio de um banco em São Paulo, ela vive hoje em Lisboa, onde, há seis meses, criou uma rede de apoio dedicada a dar suporte a cuidadores de pessoas com problemas de saúde. A mudança de rumo começou após uma série de experiências pessoais e profissionais que a levaram de São Paulo a Barcelona, onde fez um MBA, e depois a Portugal, para onde se mudou há sete anos acompanhando o marido, que recebeu uma proposta de trabalho.

A chegada ao novo país veio acompanhada de algumas tentativas de empreendedorismo. A primeira foi um negócio online de entrega de flores e plantas. Mas a iniciativa não deu certo. Depois dessa experiência, Marina decidiu apostar em um projeto voltado para o bem-estar corporativo que reunia fornecedores da área e serviços de consultoria para empresas. O lançamento, porém, coincidiu com o início da pandemia, em 2020.

“A área de bem-estar, aliás, cresceu muito durante a pandemia. Mas, no começo, 70% das pessoas em Portugal nunca tinham feito trabalho remoto, muitas pessoas nem tinham computador em casa. Então, naquele momento, decidi parar um pouco a minha veia empreendedora e voltar a ser funcionária.”

Ela passou então a trabalhar na empresa de um aplicativo de entregas, onde liderou uma equipe responsável pela gestão do relacionamento com clientes de grandes marcas atendidas pela plataforma. Nesse período, teve a primeira filha e, posteriormente, mudou novamente de área ao atuar como coaching online. Com o nascimento do segundo filho, a rotina familiar ficou ainda mais intensa.

A virada que redefiniu sua trajetória ocorreu no ano passado. Quando o filho mais novo ainda não tinha completado um ano, o marido foi internado devido a uma inflamação no fígado, causada por doença autoimune. O casal passou a ser acompanhado pela equipe médica de um hospital de Lisboa. Diante da nova realidade, Marina percebeu que não conseguiria conciliar todas as responsabilidades.

“Não dava para trabalhar, cuidar dos filhos, do marido, da casa, tudo ao mesmo tempo. Então, saí da empresa em que trabalhava. Um mês depois já estava com o projeto que tenho agora”. Foi nesse contexto que nasceu o The Together Hub, criado há cerca de seis meses. A iniciativa surgiu a partir de uma sensação que Marina diz ter experimentado durante o período de tratamento do marido: a invisibilidade do cuidador não profissional.

“Comecei a me sentir cada vez mais invisível neste processo. Daí percebi que não era só eu. Outras pessoas também sentiam isso. O cuidador não profissional acaba colocando o paciente e tudo mais como prioridade e acaba esquecendo de si próprio. E as pessoas também o esquecem. Poucos perguntam como está o cuidador não profissional, como ele está lidando com a situação, que rede de apoio ele tem. Perguntam sim, mas do paciente. Foi daí que comecei o The Together Hub, para dar voz e um pouco mais de holofote para os cuidadores não profissionais.”

Saúde pública em Portugal

Inicialmente, o projeto não nasceu com um plano de negócios estruturado. Marina começou escrevendo textos sobre a própria experiência como forma de organizar sentimentos e compartilhar reflexões com outras pessoas que enfrentavam situações parecidas. Ela percebeu rapidamente que havia uma lacuna: apesar da existência de recursos clínicos, faltavam espaços de troca entre cuidadores.

A plataforma evoluiu então para uma rede de apoio digital dedicada a apoiar quem acompanha familiares ou pessoas próximas durante tratamentos de saúde. O The Together Hub reúne conteúdos informativos, espaço de interação entre cuidadores e, futuramente, grupos estruturados de apoio. O acesso aos textos publicados na plataforma é gratuito. Já o chat, que permite interação direta entre cuidadores, funciona mediante uma contribuição financeira. A expectativa é ampliar também grupos de apoio online e, no futuro, promover encontros presenciais.

“Tem a questão dos grupos, a questão de desenvolver dentro de empresas essa mentalidade do cuidador que, no fim, acaba expandindo. Além de pai e mãe, vai para filhos, esposa, marido e tal. E a gente trabalha para ajudar a melhorar a saúde de Portugal. Eu sou uma pessoa muito grata à saúde pública: minha filha nasceu em hospital público, meu marido é assistido pela saúde pública, tenho muitas coisas positivas para falar e a gente quer ajudar para que os cuidadores e os pacientes tenham uma experiência melhor”, frisa a empreendedora.

“Heróis sem capas”

Além do apoio direto entre cuidadores, o projeto também busca atuar em parceria com empresas e instituições de saúde. A proposta é desenvolver programas estruturados de apoio a funcionários que exercem o papel de cuidadores, além de iniciativas de formação que ajudem essas pessoas a lidar melhor com situações clínicas complexas.

“No fim das contas, o cuidador não profissional faz parte do time de cuidados dos pacientes, e ele é completamente invisível. Muitos chamam de ‘os heróis sem capa’ ou ‘heróis com as capas invisíveis’, pois eles fazem parte do dia a dia, são extremamente importantes. Se houver treinamento para estes cuidadores, há a possibilidade de reduzir recorrências em urgências, identificar sintomas precocemente e antecipar algumas complicações”, destaca Marina.

Para ela, o debate se torna ainda mais urgente diante do envelhecimento acelerado da população portuguesa. Ela diz que já é comum encontrar idosos sendo cuidados por familiares também em idade avançada, o que cria novos desafios para o sistema de saúde e para a organização das famílias. “No Brasil, por exemplo, no Hospital Oswaldo Cruz, há um trabalho com cuidadores de pacientes com demência. Ensinam o que o cuidador pode encontrar durante o tratamento, primeiros socorros. Esse tipo de iniciativa pode ajudar a desafogar alguns sistemas de saúde.”

O próximo passo, ela informa, é ampliar a comunidade, reforçando a rede de apoio entre cuidadores e estimulando mudanças culturais na forma como esse papel é percebido pela sociedade.



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