Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.
Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.
Filho de um português, mas nascido e criado em São Paulo, o empresário Thiago Tavares fez o caminho inverso ao do pai ao decidir empreender em Portugal. Há cinco anos, abriu no Porto o Holy Sandwich Shop, restaurante especializado em hambúrgueres artesanais que combina gastronomia autoral com um modelo de negócio que valoriza a redistribuição de renda e a responsabilidade social. Parte do faturamento da loja no Porto, e das outras três que comanda com os sócios no Brasil, apoia um instituto que atende 1850 crianças e adolescentes do Estude Sonhe, em São Paulo, exemplo de iniciativa que o empresário estuda implementar em Portugal.
Thiago nasceu na capital paulista, mas mantém uma ligação antiga com a terra de origem da família. O pai, natural de Espinho, no Norte de Portugal, mudou-se para o Brasil aos 18 anos. Décadas depois, foi o filho quem decidiu atravessar o Atlântico para empreender. A relação com o território luso, no entanto, começou ainda no início da vida. “Eu nasci e, com 30 dias de vida, vim passar férias em Portugal com a família. Então, sempre me senti em casa”, confirma Thiago.
Essa familiaridade com o país ajudou na mudança. Thiago já conhecia pessoas e mantinha contatos no Porto, o que facilitou a adaptação inicial. Ainda assim, e por causa das circunstâncias, abrir um negócio revelou-se um processo mais complexo do que imaginava. Ele chegou à cidade em março de 2019 e passou alguns meses à procura do espaço ideal para o restaurante, encontrado em agosto. Decidiu então trazer do Brasil um arquiteto para manter, no Porto, o conceito do negócio em São Paulo.
O projeto ficou pronto em dezembro daquele ano e as obras começaram em março de 2020. Dias depois, porém, “estourou” a pandemia de covid-19 na Europa. Por conta da crise sanitária, o restaurante levou praticamente um ano para ficar pronto e só foi inaugurado em dezembro de 2020. Apenas um mês depois, entretanto, as autoridades de Portugal decretaram um novo confinamento. “Foi difícil, foi um desafio para todo mundo aqueles dias de pandemia. Mas não desistimos”.
Durante os meses seguintes, o funcionamento foi marcado por restrições de horário e limite de clientes. A situação começou a normalizar apenas a partir de meados de 2022. Hoje, o restaurante opera com capacidade plena. Nos primeiros tempos, Thiago assumia praticamente todas as funções da casa: atendia aos clientes, trabalhava no salão, fazia compras e arrumava o estoque.
Com o crescimento da operação, passou a dedicar-se mais à gestão financeira e administrativa, contando com um gerente para o apoio diário nas demais áreas. A unidade do Porto emprega atualmente 15 colaboradores, todos brasileiros.
O início de tudo
A história do Holy começou antes da chegada de Thiago à sociedade. A primeira unidade foi aberta em São Paulo em 2013. “Antes de ser sócio, sou amigo dos meus sócios. Eles começaram a fazer eventos para juntar dinheiro para uma ação social com as crianças de uma igreja. Levaram, por exemplo, as crianças para uma viagem ao Peru, além de várias outras ações”.
A iniciativa começou com pizzas e evoluiu para hambúrgueres artesanais, acompanhando o crescimento das feiras gastronômicas em São Paulo naquela época. O sucesso levou à abertura do primeiro espaço físico e, com o tempo, à expansão da marca. Hoje o grupo administra três restaurantes na capital paulista e prepara a abertura de mais uma unidade na cidade, o que deve acontecer em maio ou junho deste ano. No total, são mais de cem colaboradores nas operações.
“Temos o princípio de que o Holy não é uma empresa só para o lucro dos sócios, e sim para redistribuição de lucro com os colaboradores”, destaca o empreendedor. Essa filosofia também se reflete na dimensão social do negócio. Parte do faturamento das lojas brasileiras financia o Instituto Sonhe, criado por um dos sócios da empresa.
O projeto atende 1850 crianças e adolescentes, sendo 600 da Cracolândia, na capital paulista, 200 em Presidente Prudente (SP), 250 no interior de Pernambuco e 800 em Moçambique. Além de educação e cultura, elas recebem alimentação e assistência médica e praticam esportes. “Isso é uma forma de devolvermos para a sociedade o muito que a gente ganha. Esse é basicamente o nosso DNA”.
O objetivo é dar às crianças e aos adolescentes a oportunidade de um futuro melhor, longe da vulnerabilidade social. “É aquela história: se cada um cuidar da sua rua, a gente vai ter uma sociedade melhor”.
Inspirado nessa experiência, Thiago pretende desenvolver uma iniciativa semelhante em Portugal. “Estamos estudando um projeto para ajudar pessoas no Porto. Ainda não sabemos como vai ser, mas estamos planejando algo para melhorar a vida da comunidade. Estamos estudando onde podemos ajudar e agregar”.
O embrião do empreendedor
Antes de entrar no setor dos restaurantes, Thiago trabalhou, desde bem jovem, com o pai em um negócio familiar de lojas de CD e DVD, que chegou a ter 58 unidades em São Paulo. Foi nesse ambiente que começou a atuar na área administrativa. Mais tarde ingressou na faculdade de gastronomia e passou a trabalhar na lanchonete da escola da mãe. Depois de uma temporada de estudos e trabalho em Portugal, regressou ao Brasil, onde o pai decidiu fechar as lojas de música e abrir um restaurante.
“Meu pai deu uma grande guinada: de uma vida na música para um restaurante. E lá entrei como chef para assumir a cozinha. Fiquei lá nove anos e, em 2019, vendi o restaurante e vim para Portugal, para montar o Holy”. O conceito da loja, diz ainda o empresário paulista, combina ambiente de restaurante com um cardápio criativo. “O Holy não é uma lanchonete. É um restaurante que serve hambúrgueres”, reforça. Entre as entradas, destacam-se as coxinhas preparadas sem massa – apenas o recheio empanado e frito – disponíveis nas versões de frango e pastrami.
Divulgação
Entre os hambúrgueres, há opções mais altas e grelhadas, com 180 gramas de carne, e versões menores prensadas na chapa, com crosta caramelizada. Um dos destaques da casa é o Pony Line, eleito o terceiro melhor hambúrguer do mundo no ranking World’s 25 Best Burgers, da plataforma Burgerdudes. A receita junta carne dry aged com pelo menos 60 dias de maturação, cheddar inglês e melaço de bacon.
Embora as receitas sejam desenvolvidas em São Paulo, o restaurante também valoriza ingredientes portugueses, como o queijo da Serra da Estrela, presente em um dos hambúrgueres do cardápio. Com a consolidação da unidade no Porto, Thiago já pensa nos próximos passos da marca em Portugal: clientes frequentemente perguntam sobre uma eventual abertura em Lisboa, possibilidade que não está descartada.

Deixe uma Resposta