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Cartas ao director | Opinião


A desumanização do trabalho

​Considerar a Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP) comparável ao partido populista Chega constitui um insulto a todos os trabalhadores. O Chega caracteriza-se como um partido de extrema-direita, de inclinação ditatorial, aliado de tudo o que é bafiento e nostálgico de um passado fascizante e colonial. A nível internacional, associa-se a grupos, partidos e governos corruptos, hostis à liberdade de expressão, anti-imigração e avessos à diversidade étnica. Opõe-se a valores fundamentais, como a empatia, a cordialidade e o respeito pelo próximo; é contrário à emancipação da mulher, defendendo a sua subordinação ao homem (o episódio de André Ventura com Teresa de Morais na presidência da mesa da Assembleia da República é execrável). No plano económico, sustenta posições liberais e, ao sabor das circunstâncias, adapta o discurso para obter apoio popular, usando frequentemente a mentira e o insulto como armas políticas.

​Esta é a equiparação feita por Montenegro e pelo seu governo aos trabalhadores sindicalizados que lutam pelos seus direitos. Não estamos perante um “provinciano” — o que, neste contexto, até poderia ser um elogio — mas antes perante um homem das cavernas da humanidade. Sob uma linguagem polida, utiliza uma retórica que nunca ousaria aplicar aos representantes das confederações patronais. ​Talvez quando o trabalhador cumprir jornadas de 12 horas, não tiver contrato, puder ser despedido sem justa causa, não gozar o direito a férias, não estiver sindicalizado e for chicoteado no local de trabalho — em sentido figurado ou talvez nem tanto — se consiga, finalmente, o “trabalhador apto” para esse futuro radiante da sociedade.

​Como ex-trabalhador sindicalizado, senti-me enxovalhado. Como empresário, olho esse porvir.

Jorge Patrício Martins, Ponte de Lima

E depois da guerra?

Criticar a intervenção militar no Irão com base no atropelo ao direito internacional é algo que fica entre o ingénuo e o manipulador. Se, por exemplo, a Andaluzia estivesse governada por um Estado Islâmico, este a desenvolver mísseis e armas nucleares com o objectivo público e assumido de arrasar Lisboa, nós teríamos continuado década após década calmamente apelando ao tal direito internacional, quando este nada faz? Não teríamos legitimidade de facto para rebentar com as instalações militares? Seria guerra, sim, seria guerra.

Certo que a forma como o regime iraniano trata os opositores cai fora do respeito pelos Direitos Humanos, mas se fôssemos bombardear todas as ditaduras atrozes, a lista seria longa e os resultados pouco garantidos. A situação actual inclui um atestado de nulo valor e clara incompetência da ONU. Lidar com um Trump não será fácil, mas entregar esse trabalho a um Guterres tem resultado garantido, sendo que, mesmo com um presidente dos EUA menos atípico, não seria expectável muita dinâmica e liderança construtiva da parte deste secretário-geral.

Se a morte de Khamenei não foi chorada por muita gente, e até celebrada, como reagirá a população aos contínuos bombardeamentos, mesmo se apenas sobre instalações do regime? O regime mostrou ser suficientemente sólido para sobreviver a uma decapitação, mas se cair, o que virá depois? Que plano existe para esse dia seguinte? Experiências recentes estão fartas de demonstrar que muito mais difícil do que ganhar a guerra pode ser ganhar a paz.

Carlos JF Sampaio, Esposende

O perigo de uma guerra total incontrolável

O mundo não será o mesmo depois do ataque contra o Irão perpetrado por Israel e os EUA. O Médio Oriente pode ficar totalmente a ferro e fogo e a Europa mergulhar numa recessão de proporções alarmantes – se não for arrastada para o conflito (o que será pior). A brutal subida dos combustíveis vai encarecer exponencialmente os bens de primeira necessidade e os bens de todos os sectores e serviços. O ataque desferido pelos EUA contra o Irão – é certo que este país que não se recomenda – não tem enquadramento legal nem se escora em nenhum dos pressupostos: não se aplica na legítima defesa individual, nem na legitima defesa colectiva, nem na responsabilidade de protecção.

Apesar da repressão nas manifestações de Janeiro, Washington e Telavive não se deram ao trabalho de dar conhecimento do ataque ao Conselho de Segurança da ONU. Trump, sem dúvida, com esta decisão arbitrária feriu de morte o direito internacional. Ma, quem, primeiramente, feriu de morte esse mesmo direito? Foi Putin ao invadir a Ucrânia. A lei do mais forte está sobrelevando todos os tratados internacionais que visam a manutenção da paz. A força da razão está dando lugar à razão da força. Ninguém sabe o que aí virá mas, certamente, um retrocesso civilizacional já está em marcha que nos pode levar ao abismo.

António Cândido Miguéis, Vila Real



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