A Burda era presença constante na mesa da sala de casa da minha avó, mas não era a única, além da revista alemã que vinha cheia de moldes de saias, calças, blusas e vestidos, a minha avó abria a Elle ou a Marie Claire e desenhava uns modelitos a partir das produções de moda feitas nessas edições, adaptando-os ao seu gosto e ao seu corpo. Depois, a dona Alzira, uma antiga proprietária de boutiques em Luanda, que veio “retornada” e se tornou costureira — uma mulher lindíssima, sempre perfumada, muito bem vestida e penteada, com uns óculos de massa moderníssimos —, sentava-se com a minha avó e eram tardes preenchidas. Riam, desenhavam e iam às compras. A Baixa lisboeta estava cheia de lojas de tecidos, da Casa Frazão à Londres Salão, e de pequenas retrosarias onde as duas passavam horas a descobrir botões ou fitas para completar o outfit. Duas semanas depois, talvez um mês, após várias provas, ficava pronto o vestido para uma cerimónia ou o fato saia e casaco para o dia-a-dia.
Apesar de bastante mais nova, a dona Alzira morreu primeiro do que a minha avó — não foi fácil a vida de quem voltou, e embora não tenha cedido ao ressabiamento (que hoje leva tantos com histórias semelhantes a apoiar o partido de extrema-direita), Alzira rendeu-se à tristeza. Morreu Alzira, a minha avó, as retrosarias, as lojas de tecidos, implantou-se o pronto-a-vestir e, três décadas depois, a fast fashion. Lembrei-me das tardes de gargalhadas que atravessavam a porta da sala fechada, enquanto tiravam medidas, quando a jornalista Inês Duarte de Freitas ligou para Audrys Hernandéz, costureira das Caldas da Rainha, para saber se tinha sido a autora do vestido que Margarida Maldonado Freitas, a mulher de António José Seguro, usou para a tomada de posse. “Costuro para a sogra do Presidente, a D. Odete, e faço arranjos para a Margarida Freitas, mas não fui eu. Não vieram aqui desta vez”, declarou.
É sempre uma curiosidade saber o que vestiu A ou B, ou por que razão C usou determinada cor, porque a moda tem significado. Recordo-me de Hillary Clinton, em 2016 — há dez anos —, quando perdeu e vestiu roxo (Bill Clinton usou uma gravata da mesma cor), numa clara mensagem de união — o roxo é o resultado da mistura do azul dos democratas com o encarnado dos republicanos. Em 2021, voltamos a dar conta do que vestiram Kamala Harris, Michelle Obama e, novamente, Hillary Clinton, na tomada de posse de Joe Biden. Com o regresso de Donald Trump à Casa Branca, fizemos um extenso trabalho sobre o que vestiram as primeiras-damas nos últimos 30 anos. Em comum, elegeram designers norte-americanos. Também Melania Trump o fez, em Janeiro de 2025, e não só escrevemos sobre o que vestiu, um fato saia e casaco de um “azul patriótico”, como fomos ouvir especialistas em etiqueta sobre o chapéu — dos textos mais lidos então.
Se Melania usou um designer menos conhecido porque, como o próprio stylist da primeira-dama admitiu, não haveria assim tantos interessados em vestir a mulher de Trump — porque a moda é política, repito —, Usha Vance optou por Oscar de la Renta, o mais clássico criador norte-americano; e Ivanka Trump foi criticada por usar a francesa Dior e não um nome nacional. Não foi uma nem duas vezes que já aqui escrevemos sobre o que veste Letizia de Espanha ou a futura rainha Kate — em comum, a primazia aos designers dos seus países. Letizia veste marcas espanholas, e já aconteceu, numa cerimónia, ter um vestido igual a uma das homenageadas: Mango. Já Kate usa criadores britânicos, repete vestidos e até já envergou um em segunda mão.
Já escrevemos sobre tudo isto e não fomos os únicos, os jornais de referência internacionais também o fizeram e fazem quando alguém chega ao poder, logo, não seria de estranhar que, com a tomada de posse de António José Seguro, tivéssemos curiosidade sobre o que vestiria a sua mulher (também perguntámos sobre o fato do Presidente, não obtivemos resposta). Margarida Maldonado Freitas optou por um criador italiano e fez ligeiras alterações ao vestido. Noticiá-lo, para muitos leitores, foi um escândalo com insultos à jornalista e ao PÚBLICO e ameaças de deixarem de ser assinantes.
Caros leitores, a moda é notícia, o que vestimos tem significado — temos uma entrevista com a psicóloga Maria Klien sobre como a moda influencia até a nossa saúde mental. Assim como é notícia os designers declararem ao PÚBLICO que lamentam que a opção não tenha sido por criadores nacionais. Voltámos a escrever e lá veio mais indignação e mais insultos. Mas esta, acreditem, é mesmo uma questão pertinente: decidir ou não usar o que é nacional.
Podemos não concordar, mas a expectativa da indústria da moda e também da do calçado é que políticos, figuras públicas ou com impacto usem o que é português — lembro que, em 2014, Pires de Lima, então ministro da Economia, foi alvo de críticas fortíssimas por confessar usar sapatos estrangeiros num dia em que visitou dezenas de stands de calçado português na Micam, a feira de calçado em Milão. De tal maneira que, assim que pôde, um mês depois, declarou que calçava português. Repito, é essa a expectativa e foi isso que fizeram as mulheres dos outros chefes de Estado, como Maria José Ritta e Maria Cavaco Silva.
À medida que a semana chegava ao fim, percebemos que tudo isto nos ultrapassou, com outros órgãos de comunicação a citar-nos, em vez de fazerem o seu próprio trabalho — ouvimos cerca de uma dezena de pessoas para escrever os dois textos —, com comentadores nas rádios e podcasts a pegarem no assunto, com as hostes da extrema-direita a empolar o caso. Claramente que ao escrevermos o objectivo foi informar, foi esclarecer que nem sequer havia uma questão de direitos de autor, que a dona do vestido nada tinha feito de condenável. Demos ainda a conhecer que há quem, no meio da indústria, tenha expectativas em relação à mulher do Presidente — parêntesis para dizer que hoje termina a ModaLisboa que, como sempre, acompanhámos diariamente, desde quinta-feira.
A moda é política, os trapos são políticos e o que vestimos transmite uma mensagem, quer os leitores queiram, quer não. Talvez, ao optar por um criador italiano, Margarida Maldonado Freitas queira deixar claro que não quer ser “primeira-dama” — o cargo não existe oficialmente —, que quer continuar na sua vida nas Caldas da Rainha, que não quer ser uma mulher à sombra de um homem com um papel acessório e admiro-a por isso. Está no seu direito. Mas como se vê pela polémica criada à volta do vestido tal não é possível.
E volto à minha avó que foi mulher do “Zé, que saiu da Beira Baixa, foi bem-sucedido em Lisboa e, por isso, era padrinho de todos os filhos da terra”. Ser mulher do meu avô era chegar à aldeia e toda a gente lhe fazer uma visita para pedir qualquer coisa, de um conselho matrimonial a um emprego em Lisboa. O meu avô já era só um velhinho alienado da realidade e ainda recebia telefonemas que começavam com um “ó padrinho, o meu neto vai para Lisboa estudar e não tem onde ficar…”. Como dizia esta semana o meu colega Luís J. Santos, não julgue Margarida Maldonado Freitas que vai continuar na sua vida e não vai passar a receber visitas nas suas farmácias ou a ser interpelada na rua por gente a pedir-lhe ajuda. Afinal, ela é a mulher do Presidente da República. A sua vida mudou, quer vista um criador nacional ou Valentino.
Boa semana!
P.S.: Para quem lê esta newsletter, em baixo estão outros temas Ímpar que destaco nesta semana; para quem nos lê no site, é só clicar aqui.

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