O scroll infinito em conjunto com a personalização do feed, cria um ciclo de reforço: “Quanto mais consumimos, mais preciso se torna o feed; quanto mais preciso o feed, maior a probabilidade de continuarmos a consumir. O cérebro interpreta esta relevância como sinal de recompensa, gerando a sensação de que ‘vale a pena continuar um pouco mais’.”
Além disso, o nosso cérebro gosta de poupar energia e esta personalização oferece isso: não precisamos de procurar o que nos interessa, o feed oferece-o automaticamente. “Esta facilidade torna o consumo quase inconsciente, aproximando-o de um comportamento habitual. Ao mesmo tempo, o feed mistura conteúdos muito apelativos com outros menos interessantes, explorando a lógica da recompensa variável: nunca sabemos quando surgirá o próximo post ‘bom’, o que nos incentiva a continuar a deslizar.” A personalização cria também, refere o investigador, uma sensação de familiaridade e validação.
Mesmo quando temos consciência do que está a acontecer e acabamos irritados por ter perdido tanto tempo agarrados ao ecrã, estes mecanismos tornam a experiência tão viciante que a decisão de parar é difícil. “Deixa de ser uma escolha consciente e passa a ser um comportamento automático, sustentado pela combinação de relevância, hábito e recompensa psicológica.”
Tudo isto nos dá algum prazer imediato, mas tem um custo. Desde logo, gera uma sensação de perda de controlo do tempo, que acaba por gerar culpa e frustração. Mas até isso leva a mais consumo, em lugar de o evitar. “Esse conflito entre prazer momentâneo e arrependimento reforça o consumo compulsivo.”
Vários estudos sugerem também que o uso prolongado e persistente do scroll infinito pode afetar a atenção e até a memória. A diminuição da capacidade de atenção é o mais conhecido. “A exposição contínua a estímulos curtos e variados treina o cérebro a alternar rapidamente o foco, tornando mais difícil manter a concentração em tarefas longas ou profundas.” Pode haver um impacto emocional associado à comparação — com uma diminuição da autoestima e própria “alternância entre conteúdos positivos e negativos contribui para a instabilidade emocional, mantendo o utilizador num estado de alerta constante”, aumentando a ansiedade.
Mesmo quando achamos que estamos a aprender alguma coisa, esse pode não ser o caso, porque este tipo de consumo tem um impacto negativo na memorização. “O consumo rápido e superficial de informação favorece o processamento raso, dificultando a consolidação de conteúdos na memória de longo prazo. Lemos muito, mas retemos pouco.”
Apesar de o scroll infinito e os algoritmos serem desenhados para gerar continuidade na utilização e um tempo de permanência prolongado, os utilizadores podem adotar estratégias para evitar cair nessa armadilha. “Uma das práticas mais eficazes é definir limites claros de uso, como horários específicos para aceder às redes sociais ou tempos máximos diários, ajudando a transformar um comportamento automático numa escolha consciente”, diz Joaquim Fialho.
Por outro lado, podem ser tomadas decisões que ajudem precisamente a interromper a dinâmica de fluxo contínuo: “ desativar a reprodução automática, remover notificações não essenciais ou usar a versão web em vez da app cria pequenos atritos que facilitam a decisão de parar. Estes ‘pontos de fricção’ devolvem controlo ao utilizador.” O objetivo, lembra o investigador, não é eliminar o uso, mas criar uma relação equilibrada, “em que a tecnologia serve o utilizador, e não o contrário”.
Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental.
Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.
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